Sexta-feira, Março 16, 2012

Eu li um macaco

É oficial: parece que há mesmo um revivalismo dos anos 90. Começaram a aparecer tímidos sinais há uns anos, cartazes nas paredes a indicar “festa anos 90 no Santiago Alquimista”, trintões barrigudos a abanar a cabeça em discotecas trendy um pouco por todo o país, quando o DJ de serviço metia o Smells Like Teen Spirit. Os barrigudos trintões deixavam de abanar a cabeça e começavam a fazer mosh quando o DJ de serviço colocava em seguida o Killing in The Name, dos Rage Against The Machine. As discotecas enchiam-se com os berros cantados a plenos pulmões, “Fuck You – I Won’t do what you tell me”.

Depois de os ouvirmos nas discotecas, ouvimo-los ao vivo e a cores. As bandas dos anos 90 regressam em força aos palcos. Aprendemos que os Helmet lançaram um disco “mítico” nos anos 90, chamado “in the meantime”, disco esse que até há bem pouco tempo julgava eu ser um tanto ou quanto banal.

Do norte de Portugal regressa outra banda mítica, os Ornatos Violeta, com o seu mítico vocalista, com a sua mítica voz e as suas míticas músicas tornadas ainda mais míticas nos últimos anos, com a sua passagem até à exaustão em rádios míticas como a Comercial ou em míticos programas, como os Ídolos, apresentados por míticas figuras da música portuguesa.

A mania dos anos 90 tinha de voltar em força com o indie rock bubblegum.

Nos anos 90 houve uma editora caseira chamada BeeKeeper, que lançou um álbum Do IT Yourself chamado Teenagers From Outer Space, com uma tiragem de algumas centenas de exemplares.

O álbum era mesmo Do It Yourself, as gravações feitas em garagens e estúdios manhosos, as vozes desafinadas e as guitarras minimalistas e com o volume de som a baixar sempre que era ligado o pedal da distorção.

Eram exactamente assim os Pinhead Society, pontas de lança do movimento bubblegum, um grupo simpáticos de 2 rapazes e 2 raparigas de Telheiras.

As meninas tinham um ar fofinho e imberbe e cantavam coisas importantes como “a mosquito on the Wall is not a reason to be scared” ou “woke up really late, don’t wanna go to school”.

Lançaram uma maquete manhosa, em formato cassete, com um som roufenho, mas com uns desenhos giros de abelhas e meninas com laçarotes no toutiço.

Foi um sucesso entre a crítica, que ficou embevecida. Fizeram capa no mítico jornal Blitz, capa essa que ficou mítica.

Era oficial: os Pinhead Society transformaram-se na nova esperança da música portuguesa.

Depois vieram tempos difíceis. As cassetes desapareceram de moda, o indie rock das naves espaciais e dos laçarotes no toutiço deixou de ser moda.

Até que de há uns anos para cá apareceu a nova reivindicação de cantar em português, com argumentos bem explicados em muitos textos. Por isso, também não me vou alongar muito sobre os prós e contras de se cantar na língua do Camões.

Só serve isso para explicar um pouco melhor o novo fenómeno da música tuga: a música tuga cantada na língua de Camões, mas que fala da escola e de acordar tarde.

Ou seja, trata-se de um revivalismo das bandas dos anos 90, mas com a variante de ser cantada em português, talvez para ser mais “autêntico” ou para “passar melhor a mensagem”.

E regressam as bandas do antigamente, agora com novas roupagens e novas carinhas larocas do indie rock, adaptado ao tempo moderno.

Os novos pontas de lança deste movimento são duas miúdas e chamam-se “Pega Monstro”.

Já não dizem o velhinho e tão 90’s “A mosquito on the wall is not a reason to be scared” e adaptam-no para o bem mais actual “eu vi um macaco”.

O velhinho jornal Blitz já deixou de existir, por isso as Pega Monstro têm de aparecer no Ípsilon, o suplemento cultural do jornal Público.

E quem mais do que o mítico João Bonifácio, famoso por míticas crónicas, como aquela do ombro do cão e outras pérolas jornalísticas para fazer a cobertura do fenómeno?

A palavra ao escriba, que descreve um concerto da banda: “foi um daqueles momentos a que umas dezenas de pessoas assistiram e que anos depois centenas dirão ter visto”. Ena.

E as letras? João Bonifácio: as Pega Monstro têm um “trato precioso da linguagem de rua”.

Fiquei curioso. Decidi ler um pouco mais o que diz o escriba. Percebi que quando a cantora grita a plenos pulmões “o meu cão morreu e já não quero outro igual”, parece a mais profunda das orações.

Ou quando dizem “hoje em dia faz tudo tão mal/ não comas carne, peixe ou vegetal/ porque nada faz bem”, estão a fazê-lo com uma camada de significados, que escondem um mal-estar maior (será que é como no Artista da Fome, de Kafka, que confidencia no final que nunca comeu nada porque nunca encontrou alimento que o tivesse agradado?).

Ou quando cantam “não tenho amigas/só amigos/e a minha irmã”, tocam, segundo Bonifácio, “numa ferida, a da identidade feminina que está prescrita às meninas”.

Esperemos que as mensagens subliminares e cheias de uma proverbial sabedoria não escapem ao público em geral, como aconteceu com os hoje esquecidos Pinhead Society.

Segundo João Bonifácio, se a coisa correr bem poderão vender, no máximo, dois milhares de discos.

Para já, e se estiverem à espera de que quem as ouve são só “slackers ganzados semi-suburbanos”, que se engane. No tal concerto mítico que daí a uns anos todos dirão ter assistido, estava “gente sofisticada”, “artistas, gente da moda, pessoal das galerias, biólogos, tradutores, engenheiros”.

Talvez a sofisticação das letras dos Pega Monstros passe paulatinamente para o resto do país e do mundo. Para que daí a muitos anos se cante a plenos pulmões nas discotecas, por entre um mosh improvisado: “eu viiii um macacooooo”.

Terça-feira, Fevereiro 28, 2012

Neilton Tcheleque, 2ª parte, mais ou menos, ou pausa para ganhar embalo para começar a história a sério

Aproximei-me da menina sem nariz e perguntei-lhe:

- Posso sentar-me?

Ela respondeu, muito naturalmente:

- Sim, claro! Há muito espaço.

Primeiro desafio ganho. A conquista de um lugar à mesa. Resolvi avançar com prudência e uma certa neutralidade, falando do espaço físico que nos rodeava. Um tema seguro:

- Este bar está sempre à pinha!

- Hoje nem por isso. Há algumas mesas vazias.

Não estava à espera desse contra-ataque tão frontal e sincero. Havia, de facto, algumas mesas vazias. Não havia volta a dar. Tratei de me justificar:

- Sim, mas são junto à porta. Não gosto de me sentar aí, apanho corrente de ar.

- Achas? Este bar é fechado, nem tem janelas, para haver correntes de ar deveria existir uma outra porta que nos levasse à rua e que estivesse aberta ou que houvesse alguma janela que estivesse igualmente aberta…

Um bom ponto de vista levantado pela menina sem nariz. Justifiquei-me novamente:

- Mas apanho o frio da rua.

- Sim, isso é possível, mas hoje até está calor.

Um ponto de vista demasiado subjectivo. Estava calor para uma noite de Inverno num país europeu, mas estava frio se comparássemos com uma noite tropical no pico do Verão:

- Está de facto calor para esta altura do ano, mas eu sou friorento. Prefiro sentar-me aqui a um canto. Fico longe da confusão e vejo melhor que entra e quem sai. E confesso que não gosto de me sentar sozinho a uma mesa. Combinei encontrar-me aqui com uns amigos, mas afinal eles não vêm.

Sorri satisfeito. Dera uma boa resposta. Mas a nariguda não se fez de rogada:

- Por acaso reparei que estavas a falar com aquele rapaz que está ali sentado com aquelas estrangeiras.

- Aquele rapaz? É um antigo colega meu, não o conheço bem, nem me lembro como se chama.

- Mas as miúdas que estão com ele até são giras. Podias ter-te sentado ao pé delas.

- Sou um bocado tímido, não me sinto à vontade a falar com gente estranha.

- Mas sentaste-te ao pé de mim e não nos conhecemos.

- É verdade. Mas eu vi-te ali do fundo e senti uma empatia imediata quando te vi.

- A sério? Que querido!

- Não sou querido, estou a falar a verdade. E acho que te conheço de algum lado. Não foste ver um filme outro dia ao festival de cinema?

- Acho que não. Não gosto muito de cinema. Prefiro ver os filmes na televisão, sentada no sofá.

- Eu também gosto de ver filmes em casa. É mais confortável. O problema é que adormeço muitas vezes.

- Eu adoro adormecer em casa a ver filmes! De resto, gosto de ver filmes por causa disso. O ecrã embala-me, mais o som da voz dos actores. Confesso que, de resto, não percebo nada de cinema, nem gosto muito. Aborrece-me um bocado. Como é que se chama aquele realizador velho muito chato? Manoel César das Neves?

- Manoel de Oliveira. Eu, para confessar, também já gostei mais de cinema…então não deve ter sido num festival, se calhar foi em algum concerto, ou assim…

- Acho que não. Não gosto muito de música. Prefiro ouvir música em casa, ligo a rádio Comercial e sento-me no sofá.

- Eu também gosto de ouvir música em casa. É mais confortável. O problema é que depois adormeço, enquanto bebo um copo de vinho a ouvir música no sofá.

- Eu adoro adormecer em casa a ouvir música! De resto, gosto de ouvir música por causa disso. Fico embalada. Quando me perguntam nomes de bandas de que gosto, não sei responder, porque não gosto de bandas! Não conheço cantores nem bandas. Só músicas ouvidas na rádio. E eu sou o contrário de ti. Odeio vinho e todo o tipo de bebidas alcoólicas.

A conversa poderia ter-se desenrolado mais ou menos nestes moldes. Não faço ideia. Estes diálogos que acabaram de ler são completamente inventados. Isto porque nunca cheguei a falar com a menina sem nariz.

Quando me preparava para a abordar com a questão: “posso sentar-me à tua mesa?”, reparei num indivíduo magro, que estava sentado a uma outra mesa, sozinho. Vestia uma camisa de xadrez, com os colarinhos apertados até cá acima. Tinha um lápis na mão, com o qual escrevia no tampo da mesa, em letras garrafais:

CONNY NED CONNY NED CONNY NED CONNY NED

Tive um arrepio na espinha. Sem hesitar, sentei-me na sua mesa e disse-lhe, em tom provocatório:

Se queres que te diga, esse CONNY NED não chegava aos calcanhares do Neilton Tcheleque.

Olhou-me surpreendido e com uma mal disfarçada raiva que lhe devia provir dos recantos mais escuros da alma.

Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Recordando Neilton Tcheleque - 1ª Parte

Fins de tarde de um dia de semana. Encontrava-me por casa, a comer uns restos de pizza semi-descongelada, ligeiramente aborrecido. Tinha de escrever um texto à pressão para a Revista. O prazo limite para a entrega do texto terminava daí a umas quinze horas. Havia que meter mãos à obra o mais rápido possível.
Dei uma olhadela na minha lista de “ideias para textos”, que consultava nos momentos de menor inspiração.
Já os tinha utilizado quase todos. Restavam-me estes:
1- História sobre miúdo que está sempre a apanhar porrada e faz constantemente novas queixas-crime: um miúdo chega a casa e diz à mãe que um colega lhe partiu os dentes. A mãe diz que vai fazer uma queixa-crime. No dia seguinte, o colega parte-lhe uma perna. A mãe diz que vai fazer uma queixa-crime. A violência aumenta de tom à medida que as queixas-crime se acumulam no Tribunal.
2- Pessoa que sonha que arranjou um emprego e acorda sem saber qual é: a pessoa adormece extremamente ansiosa por ter arranjado finalmente um emprego. Ainda por cima é bem pago. Todavia, no dia seguinte, quando se está a vestir para ir para o trabalho esquece-se por completo onde é que este se localiza nem sabe qual é realmente o tipo de trabalho.

Não me apetecia pegar em nenhum dos dois. Iriam dar-me muito trabalho e estava farto de histórias mirabolantes.
Nisto, tocou-me o telefone. Era o Zé Mário. Atendi.
- Então rapaz, tudo bem?
- Está tudo, puto, e contigo?
- Também. Estou aqui a acabar uma história para entregar amanhã na Revista.
- Fazes bem, pá. É sobre o quê?
- Hum…é difícil explicar, mistura vários temas…
- E já estás quase a acabar o texto? Ia dizer-te para tomarmos um copo logo à noite, no Estêvão. Deve tar lá o pessoal todo.
- Pois, mas não dá, tenho de acabar isto.
- Então acabas o teu texto e vais lá ter a seguir para tomar um copo.
- Ainda me vou demorar um bocado.
- Então tomas lá um copo e vais a seguir para casa acabar o texto.
- Não dá, pá…tou sem inspiração. Olha, na verdade ainda nem comecei o texto e nem sei o que hei-de escrever.
- Então? Estás sem ideias?
- Tenho algumas ideias, mas não me apetece escrever sobre isso. São sempre as mesmas histórias estapafúrdias e contos de perlimpimpim.
- Como assim?
- Sei lá, apetece-me escrever uma coisa mais visceral, real, com conteúdo. Nada de situações surreais ou imaginárias. Tudo muito certinho e extremamente credível.
- Parece-me bem.
- Pois, mas estou sem inspiração para isso.
- Por isso mesmo é que deves ir beber um copo. Lá no Estêvão há sempre grandes personagens! Olha, estive lá ontem e sabes quem encontrei?
- Não. Quem?
- Nem vais acreditar. Estava lá uma velha que era filha do Fernando Pessoa.
- Do Fernando Pessoa? Qual Fernando Pessoa?
- Qual é que havia de ser, pá? O poeta, pois claro!
- Estás a falar DO Fernando Pessoa??
- Pois claro!
- Mas o Fernando Pessoa não teve filhos, pá!
- Isso também pensava eu! Mas encontrei ontem uma velha, que é filha dele. A Odete.
- Deves ter andado a beber. O Fernando Pessoa morreu virgem.
- Pois, a Odete explicou-me isso. É tudo uma invenção para escamotear a verdade. Mas a verdade é que o Fernando Pessoa teve filhos mas foi uma coisa secreta, envolvia o pessoal do Aleister Crowley e seitas maradas, maçonarias, sacrifícios humanos e essas cenas todas. É claro que foi tudo escondido pelos biógrafos oficiais do Fernando Pessoa. Para dizer toda a verdade, esta Odete é filha do Fernando Pessoa e da filha do Jack, o Estripador. Sendo assim, ontem falei com a neta do Jack, o Estripador, que é portuguesa!
- Que coisa mais idiota!
- Isso é a tua opinião. De qualquer forma, isto só serve para mostrar que encontras pessoal interessante no Estêvão.
- Sim, estou a ver. Velhas com Alzheimer. Fascinante.
- Anda mas é beber um copo depois de jantar.
- Ok, estou convencido. Às 10 e tal por lá?
- Combinado.
Tentei começar uma história a partir das ideias da queixa-crime, mas os resultados foram inglórios. Sendo assim, saí de casa por volta das 10 e meia e pus-me a caminho do Estêvão.
Quando lá cheguei estava a fumarada do costume. Os intelectuais nas mesas dos fundos; os bêbados ao balcão, a falarem de futebol; a maralhada anónima nas mesas do meio, com a freakalhada misturada por perto. O Rúben servia às mesas. Tentei vislumbrar o Zé Mário, no meio da confusão do fumo e dos berros. Lá o encontrei a uma mesa no meio da sala, ao pé de três estrangeiras erásmicas. Gritou-me, com um cigarro ao canto da boca:
- Então puto, tudo bem? Estou aqui com umas amigas estrangeiras que conheci agora!
E pôs-se a falar com elas:
- See? This is the writer i told you about!
Depois virava-se para mim a “traduzir”.
- Eu disse-lhes que tu eras um escritor famoso e que eu era o teu manager.
- Escritor famoso? Só escrevo uns artigos para um jornal de tiragem mínima!
- Elas não sabem, pá! E tu és escritor, por isso não estou a mentir. E não te esqueças que estás em trabalho, isto serve para a tua reportagem fotográfica!
Com estas palavras, o Zé Mário começou a rir-se, pegou num copo de whisky e deu uma grande golada. Continuou:
- Olha, não tá cá a velha, mas tá cá outra coisa que deve ser interessante. Tás a ver aquela gaja ali a um canto? Tens de ser discreto, senão a gaja topa.
Olhei discretamente para onde ele me indicava. Acabei por ver uma miúda sentada a uma mesa, sozinha, a beber cerveja. Não tinha nariz.
- O que é que aquela gaja tem de interessante?
- Não estás a ver? (enquanto falava comigo, o Zé Mário colocou o dedo no seu próprio nariz e apontou-me para ele, enquanto franzia os olhos)
- Oh pá, claro que tou a ver que a gaja não tem nariz! Isso repara-se a uns 200 quilómetros. Fica feia, esquisita. Mas continuo sem perceber onde queres chegar.
- Onde quero chegar? Então a gaja deve ter altas histórias para contar!
- Ah é? Porquê? Se fosse assim tão interessante, não estava sozinha.
- Isso é porque ela deve ser discreta. E um bocado intimidatória.
- Lá isso.
- Deve ter grandes segredos, grandes traumas.
- Porquê?
- Porquê? Perguntas-me isso? Já viste como é a vida de uma pessoa sem nariz? Falas com esse desprezo porque tens um! Uma pessoa com traumas desses deve ter uma vida riquíssima para partilhar! E como ela não tem amigos guarda os segredos para si! Vais ser um privilegiado, vais ouvir histórias fantásticas em primeira mão! Sabes lá como terá perdido o nariz? Será alguma repórter? Se calhar foi raptada por algum gajo do narcotráfico, num país qualquer da Ásia! Ou foi um ex-namorado que lhe fez isso, algum serial killer que a queria cortar aos pedaços, mas só lhe cortou o nariz porque ela entretanto conseguiu rasgar a corda que a prendia e correu para a rua, não sem antes ter visto os restos dos outros corpos dentro do frigorífico do gajo. Ou então, foi raptada por aliens, que…
Olhei-o com enfado:
- Ok, cala-te. Estou convencido. Vou-me sentar à mesa dela. Não vens comigo?
- Achas, pá? Estou a fazer uma reportagem com estas moças do estrangeiro. Assim, cada um toma notas e compara no fim. Para além disso, a nariguda não se deve abrir tão bem com duas pessoas. Vai lá, pá! Antes que a nariguda baze.
Pedi uma bebida ao Rúben e dirigi-me lentamente à mesa da indivídua não portadora de cavidades nasais.

(continua um destes dias)






Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

"Conto de Natal" - escrito pelo nosso colaborador João César das Neves

O nosso querido amigo João César das Neves, sempre com o seu humor brilhante, desarmante, acutilante e muitas mais palavras terminadas em ante, escreveu um pequeno conto natalício, que foi publicado na sua coluna do DN.
Por ser tão hilariante, vou publicá-lo na íntegra.
Abraço e boas festas, amigo João!

"Não percebo como é que consegues ser assim!" "Assim como?", respondeu André enquanto pousava o tabuleiro do almoço diante do Pedro, na mesa da cantina da empresa.

"És incrível! Tivestes uns bons cinco minutos a conversar com a velha da caixa como se nada estivesse a acontecer."

"Que mal tem conversar com a dona Adélia? O neto tem estado doente e ela fica contente por falar dele. Felizmente já está melhor. De que é que te queixas?"

"Esta empresa está a ir por água abaixo e tu tens cabeça para o neto da velha! Estamos a ser chamados, um a um, à administração para saber o que nos espera. Se nos reduzem o ordenado ficamos felizes, porque ainda o temos. Isto deixa-me maluco. E fico mais furioso ao ver que põem ali o Presépio, como se tudo estivesse bem. Bandidos!"

Os dois amigos comeram a sopa em silêncio alguns minutos, até que André disse: "Queres saber o segredo da minha calma? Queres saber como consigo não ficar desesperado? É que o meu Pai é dono disto!"

"O teu pai? Tás maluco. A empresa foi comprada por um fundo alemão que não tem nada a ver com a tua família. Não gozes!"

"Não estás a perceber. Não me estou a referir à empresa, nem falo do meu falecido pai. Estou a referir-me Àquele a quem digo todos os dias 'Paí Nosso', que é dono de tudo o que tenho e sou, de tudo o que vejo e existe no universo. Nada me preocupa porque Deus é dono da minha vida. A confiança em Deus é a melhor coisa da existência."

"Pode ser, mas isso não te livra de ires para a rua, porque a administração não deve rezar o Pai Nosso."

"Provavelmente, mas se isso acontecer, a vontade de Deus permanece e a minha confiança n'Ele não me deixará ter um segundo de medo ou zanga. Confesso que nem sempre tenho esta atitude e frequentemente me irrito e apavoro. Mas isso deve magoar muito a Nosso Senhor, porque é duvidar da Sua Providência e do carinho com que nos acompanha a cada momento."

Depois de um silêncio, continuou: "Sabes, esta crise tem me feito muito bem. Ao princípio assustou-me, mas um dia percebi que acima dela está Deus, que quer dar-nos o melhor mesmo assim. E desde que Lhe entreguei, mais uma vez, a minha vida senti uma liberdade e alegria profundas, que não dependem do que me acontecer. 'Tudo concorre para o bem dos que amam a Deus' (Rm 8, 28)."

"Quer dizer que se fores para a rua, e os teus filhos tiverem fome, ficas contente?"

"Se for para a rua perguntarei que aventura maravilhosa o Senhor prepara para mim. Se perder o que tenho direi 'Saí nu do ventre da minha mãe e nu a ele voltarei. O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; bendito seja o nome do Senhor! (...) Se recebemos os bens da mão de Deus, não aceitaremos também os males?' (Job 1, 21; 2, 10). Aliás é bastante provável que venham aí tempos bem difíceis. Mas se ao Seu Filho Deus deixou que nós O crucificássemos, tudo o que eu sofrer é pouco. 'Estou convencido de que nem a morte nem a vida,nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso' (Rm 8, 38-39). No fim ressuscitarei!"

"Devias dizer isso ao Matias. Ele, que se diz cristão, é o mais assustado e furioso de todos nós."

"Já falei muito com o Matias. Mas nunca lhe disse isto assim. Vou tentar. Mas quem me preocupa é o Ernesto."

"O Ernesto? Esse está óptimo. Vai ser promovido e anda na maior."

"Por isso mesmo. O pobre Ernesto só tem a carreira. Vive para o emprego e só depende disso. Já destruiu dois casamentos e está cada vez mais só. É o mais miserável de todos nós. Mas não sei como abordá-lo."

"O tipo é espantoso", riu Pedro. "Imagina que ontem, quando eu protestava por terem posto aquele Presépio hipócrita, respondeu que se deveria ter aproveitado para colocar lá publicidade. Imagina! Publicidade no Presépio! O tipo é incrível!"

"A sério? Ele disse isso? Ora aí está uma oportunidade para eu lhe falar."

"O quê! Vais falar-lhe da publicidade no Presépio?"

"Não, vou falar-lhe do burro do Presépio."

(João César das Neves)

Quinta-feira, Dezembro 15, 2011

The biggest losers

Chegou o Natal, época de festas, jantaradas e muita animação.
Mas o Natal representa outras coisas.
É altura de fazer balanços.
Separar o essencial do supérfluo.
E este ano, as coisas não estão fáceis.
Estamos em época de crise.
Não só monetária.
De valores.
Humanos.
E não só.
Para o Ângulo, este ano foi dramático.
Publicaram-se menos posts.
E mais importante:
perdemos leitores.
Comentadores.
Pessoas interessadas.
A culpa foi noss
a.
Admitimos.
Fizemos textos muito grandes
.
Muitos deles, sem interesse.
Não falámos da crise actual.
Ou de fenómenos importantíssimos.
Tais como:
A morte do Steve Jobs
A casa dos segredos
Etcetra
Não fomos proactivos.
Não investimos no facebook.
No twitter.
Não comentámos um pouco por todo o lado.
A nossa voz não se fez ouvir.
Falhámos.
E temos de dar o exemplo ao país.
Temos de fazer cortes.
Não estou a falar d
e cortes salariais.
Até porque trabalhamos de graça.
Estou a falar de cortes de pessoal.
Afinal, há quatro colaboradores.
E o resultado produzido é quase nulo.
Por isso, proponho mandar embora uma das mascotes do Ângulo.
Não digo colaboradores, digo mascotes, porque somos autênticas mascotes da LITERATURA.
Não merecemos o epíteto de colaboradores.
Muito menos de escritores.
Por isso, proponho que votem numa destas duas mascotes literárias.
A que receber mais votos, continuará por aqui.
A outra terá de emigrar.
Arranjar outra zona de comodidade.
E é isso.
Senhoras e senhoras,
Escolham entre estes dois:

A SAFOTTA























Ou o LEOPOLDINO?





















Você decide. Quem é o elo mais fraco?

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

As favas dos dentes caninos

Naquele dia, o chefe disse que eu tinha uma ignorância enciclopédica.

Não respondi. A minha face corou levemente e o dente canino do lado superior direito queixou-se de uma dor aguda.

No dia seguinte voltou à carga: “o senhor é sempre assim tão obtuso ou desenvolveu essas capacidades apenas quando começou a trabalhar connosco”?

A minha face voltou a corar e a dor no dente canino aumentou de intensidade. Decidi marcar consulta no dentista.

Deixei de conseguir mastigar para o lado direito da boca quando o chefe disse, depois de avaliar um trabalho que me deu uma semana inteira para completar: “não sei o que o faz tão burro, mas olhe que funciona”.

Até que me despediu, com as seguintes palavras: “vou-lhe fazer um teste psicotécnico de graça: o senhor pode ter muitas aptidões, mas nenhuma se enquadra nesta área de trabalho. O senhor é o elo mais fraco deste escritório. Adeus”!

Nessa noite, o dente canino superior do lado direito despediu-se da minha boca sem um queixume, enquanto comia um rebuçado de caramelo. Caiu pelo tubo digestivo e nunca mais o vi (terá ficado alojado nos intestinos?).

Os dentes caninos possuem uma forma semelhante a uma pá ou lança e têm por função perfurar e rasgar os alimentos.

O dentista esclareceu: “os problemas dentários afectam a sua saúde e a sua auto-estima. Não o quero assustar, mas o seu dente canino do lado superior esquerdo também não está lá muito seguro e o conserto é bastante caro”.

Confirmavam-se as minhas mais negras suspeitas. O dente canino do lado superior esquerdo ressentia-se do trabalho extra que vinha desenvolvendo desde o surgimento das dores do meu canino do lado direito. Depois, com a queda deste dente, sentia-me desconfortável a mastigar para o lado direito.

As dores no dente canino do lado esquerdo começaram a sentir-se depois da primeira entrevista de trabalho.

Eis as conclusões a que chegaram os entrevistadores:

. O senhor até apresenta um curriculum satisfatório;

. O senhor licenciou-se com boa média numa boa universidade;

. O senhor tem cinco diplomas completos de línguas estrangeiras e é um utilizador avançado em alguns itens de avaliação da compreensão oral, interacção oral e produção oral destas mesmas línguas;

. O senhor dispõe de disponibilidade imediata, não tem filhos nem família nem ambiciona ter nos próximos tempos, podendo dedicar-nos toda a máxima atenção, com alma e coração, uma vez que até mora a cinco minutos deste escritório;

. O senhor não regateia salários – aceita o que temos para lhe oferecer, seja qual for o valor;

. O senhor tem menos de trinta e cinco anos, por isso cumpre rés-vés a relação idade/experiência, que exige 10 anos mínimos de experiência laboral acumulados com juventude, com conhecimento de um mínimo de cinco línguas, boas aptidões e competências sociais e de organização. E acredite:

- Nós tivemos em conta o facto de o senhor possuir uma grande capacidade de negociação; aptidões adquiridas em contexto profissional e em formação específica; aptidões e competências técnicas e mais outras coisas de muita importância.

Todavia:

- Reparámos que lhe falta o dente canino do lado superior direito.

E a nossa psicóloga de serviço disse:

- O dente canino tem como função rasgar e perfurar (nomeadamente a carne).

Conclusão: Parece-nos que isto é sintomático e que lhe falta a garra, a força, a determinação para segurar com unhas e dentes (desculpe-nos a facilidade da expressão) que é exigível neste caso.

O nosso conselheiro de imagem disse:

- Quem não tem dente não é filho de boa gente;

- A imagem externa é essencial para o bom nome da empresa;

-Todos sabem que um belo sorriso é como um cartão de visitas: uma falha na apresentação prejudica o conjunto.

Conclusão nº2: apesar de o seu curriculum ser aliciante, o seu aspecto exterior prejudica a sua imagem e a imagem da empresa.

Quando muito, poderíamos admiti-lo como estagiário ou seja, sem remuneração.

Eu respondi:

- Não poderiam, pelo menos, pagar-me um novo dente?

Ao que eles retorquiram:

- Isto é que é a grande capacidade de negociação que o senhor diz possuir no item 10 do seu CV? Agora é que está chumbado na entrevista. Adeus!

O meu segundo dente canino superior despediu-se da boca sem um queixume. Desta vez, não foi necessária a ajuda de qualquer rebuçado de caramelo. Simplesmente, caiu pelo tubo digestivo e nunca mais o vi (terá ficado alojado nos intestinos?).

Pedi ajuda à família. Talvez me pagassem o conserto dos dentes.

Reuniu-se o conselho familiar, de urgência. Analisaram a minha biografia, o meu curriculum, as minhas relações amorosas e a minha contabilidade financeira.

Eis as conclusões a que chegou o conselho familiar:

. Vivi acima das minhas capacidades – nos últimos meses, desde o meu despedimento, tenho consumido mais do que produzo. Dentro da família, depois do primo Tomás, que é toxicodependente, sou o membro que possui o maior défice externo.

. O primo Tomás só possui 12 dentes, o que não o impede de ter um emprego estável como arrumador de automóveis.

. Como tal, e uma vez que ainda me restavam 30 dentes, teria de viver com eles, dentro das minhas possibilidade económicas, de preferência a comer alimentos menos sólidos e a sorrir bastante menos, caramba, com a crise económica, nem há vontade de rir, de preferência até deveria fazer um ar triste macambúzio, até aos dias de hoje as tristezas não pagavam dívidas, mas talvez os tempos mudem e assim até poderei pagar as dívidas com um pouco da minha tristeza.

Os dois dentes caninos inferiores seguiram o canto do triste fado dos outros, passado três ou quatro entrevistas profissionais. Os incisivos e os molares começaram a apodrecer. Os meus dentes transformaram-se em bandeiras a meia haste, emblemas dos pecadores e desempregados crónicos, um efeito simbólico, mas altamente dissuasor.

As pessoas na rua gritavam: “lá vem o mandrião com os dentes podres! Ganha vergonha!”

A revolta do estômago e dos intestinos teve início a partir do momento em que deixei de conseguir mastigar convenientemente a comida, por causa do desaparecimento dos dentes.

Emagreci várias dezenas de quilos, deixei de me conseguir levantar, de me mexer, as pernas e os braços começaram a ressentir-se da falta de mobilidade.

Reuniu-se o conselho de família, que criticou a forma ruinosa como lidei com toda a situação.

Perdi uma perna e um braço, mas ainda me restava a outra perna e o outro braço.

Tive de pedir ajuda aos meus pais, que me arranjaram uma cadeira de rodas e me ajudavam a deslocar de uma entrevista para a outra.

As pessoas na rua gritavam: “lá vem o mandrião que nem consegue andar e a família do mandrião que não se consegue governar!”

Os rumores do escândalo chegaram aos ouvidos dos chefes dos meus pais, que os chamaram à parte e concluíram:

. Os senhores até têm currículos satisfatórios;

. Trabalham bastante sem protestar;

. Não se importam que lhes cortemos os subsídios;

. Sempre com um sorriso no rosto.

Todavia;

. O vosso filho é um pária;

. Não tem dentes;

. É magro;

. Cadavérico;

. Com um ar triste, apesar de a tristeza não pagar dívidas;

. Vive acima das suas possibilidades – gasta mais do que ganha;

. Nem sequer tem as duas pernas e os dois braços.

Concluindo:

. Apesar de vocês até trabalharem bem, o vosso filho representa, sem dúvida, um encargo, uma preocupação. Mais cedo ou mais tarde, começarão a faltar ao trabalho, a produzir menos…

. A sorrir menos!

. E os investidores? Vão ficar preocupados, ao verem a imagem da preocupação estampada no rosto dos funcionários da empresa!

- A imagem externa é essencial para o bom nome da empresa;

-Todos sabem que um belo sorriso é como um cartão de visitas: uma falha na apresentação prejudica o conjunto.

Conclusão nº2: apesar de serem uns funcionários modelo, o vosso familiar prejudica a vossa imagem e a imagem da empresa.

. Por isso, terão de ir embora. Vocês são o elo mais fraco. Adeus!

Os dentes incisivos da minha mãe começaram a doer-lhe um pouco.

. O meu pai sentiu dores de estômago.

. Os meus irmãos sentiram formigueiros na raiz dos cabelos.

Seguiram-se os despedimentos em massa de metade dos membros da família, mais a queda de membros, falência de órgãos.

Reuniu-se o conselho familiar, de urgência.

Já não era possível salvarem-me a perna e o braço que restavam, pois tinham entrado em rápida deterioração nos últimos dias, perante o olhar impiedoso e desconfiado dos membros da Sociedade Civil. O conselho familiar reconheceu que me encontrava à beira do colapso. Exigiam-se medidas imediatas de salvação.

Resolveram pagar o implante dos dentes caninos. Dos quatro. Levaram-me de ambulância para o dentista. Os implantes dentários foram um sucesso.

Quando acordei, passaram-me um espelho pela face, para que visse o resultado. Gostei. Os dentes caninos eram brancos, bonito, vistosos.

Esbocei um sorriso vitorioso.

O conselho familiar deu-me as últimas recomendações antes da entrevista:

. Não te esqueças de sorrir muito. Ficas com um ar confiante.

. Todos sabem que um belo sorriso é como um cartão de visitas: uma falha na apresentação prejudica o conjunto.

. E tens uns belos dentes caninos.

. O dente canino tem como função rasgar e perfurar (nomeadamente a carne).

. Não te faltam a garra, a força, a determinação e o instinto de sobrevivência necessários para segurar com unhas e dentes todas as oportunidades que te sejam dadas.

. E assim ajudarás o país.