Sábado, Fevereiro 06, 2010

A propósito de Sainger, o famoso escritor americano

Na verdade, não parei de escrever.
Mais: posso dizer que escrevi uns dez ou quinze Contos.
Sou capaz de estar a exagerar: vejamos…terei escrito uns cinco Contos…ou menos.
Seja como for, escrevi, um texto, de certeza. Recordo-me perfeitamente: era o Obituário do escritor que morreu, muito recentemente, o autor do Catcher in the Rye.
E agora, a propósito desse escritor, recentemente morto, e enterrado, mencionarei o drama que tenho vivido nestes tempos: no computador, onde agora redijo este texto, deixou de funcionar a consoante que se segue ao K., e que precede o M.
Poderão, desta forma, ter uma pequena noção das impicações deste drama doméstico, e artístico: nem posso escrever a paavra tecado, nem sequer fazer uma simpes menção à paavra “etra”, ou seja, não posso dizer que fata a etra a seguir ao K., e antes do M., pois isso causaria grande confusão aos caros eitores.
Tentei fazer uma pesquisa googe sobre o escritor recentemente faecido. Como podem cacuar, trata-se do genia J.D. Sainger, autor do conto “O Homem Gargahada”, e do Romance “À Espera no Centeio”, que antes se chamava “Uma aguha no paheiro”. Todavia, como deverão, decerto, imaginar, não existe nenhum site chamado “googe”, por isso, a minha pesquisa foi infrutífera.
Tentei enviar mensagens de correio eectrónico, para os meus amigos. Porém, não existe nenhum site chamado
www.gmai.com.
De seguida, tentei aceder ao meu bog, para contar o sucedido. Porém, o site
www.bogger.com não permite o acesso à minha conta.
E é isto. Imprimi este texto, e dei a um amigo, para que pubicasse no anguo saxofónico, através do seu computador, assim como está.
Entretanto, enquanto escrevo estas inhas, outras cinco etras deixaram de funcionar, mas parece-me que isto não ficará por aqui.
A minha inércia não se deve a um menor esforço da minha parte, ou a uma diminuição da criatividade.
Deve-se ao desaparecimento das etras.
E com as etras, vai desaparecendo o vocabuário.
As frases tornam-se mais simpes.
Pequenas.
Confusas.
Sem termos técnicos, por não poder fazer pesquisa googe.
Não vou desistir, apesar das contrariedades.
Mais: posso dizer que escreverei uns dez ou quinze Contos, nas próximas horas.
Ficarão, provavemente, em branco.
Ou terão, quando muito, umas duas ou três etras sotas, formando paavras sem quaquer significado.
Mas, na verdade, não deixarei de escrever.
Prometo-vos soenemente

Eopodo Ugones




Quarta-feira, Janeiro 13, 2010

Sábado, Janeiro 02, 2010

Os Obituários da Década

Quando se chega ao fim do ano, todos os jornais, revistas, blogs (ou outros espaços onde os opinion makers dão a sua palavra), publicam as suas listas dos melhores: os melhores livros do ano, os melhores discos do ano, os melhores espectáculos do ano, as melhores fotografias do ano, os melhores artigos do ano, as melhores frases do ano, os melhores jogos do ano, os melhores posts do ano…


Com o final de 2009, juntou-se outra lista: os melhores da década – o melhor disco da década, o melhor livro da década, os maiores acontecimentos sociais da década, as palavras mais influentes da década…


Por sua vez, em final de ano, e de década, chega sempre o momento de anunciar o nome dos maiores vultos que “nos abandonaram”, isto é, que faleceram, ou que deixaram este cruel vale de lágrimas.
Neste início de 2010, o Ângulo dá o seu humilde contributo para algumas destas questões. Comecemos pelo obituário. Não vou falar do obituário da personalidade do ano, ou da década, nem sequer da semana. Mas não interessa. É a personalidade deste artigo. Trata-se do guitarrista Rowland S. Howard.


Quem?


Rowland S. Howard, um sujeito australiano, que adormeceu para o seu sono eterno no passado dia 30 de Dezembro, vítima de doença prolongada.


Quando Howard bateu as botas, tinha acabado de lançar um disco a solo, chamado “Pop Crimes”. Segundo a Imprensa especializada australiana, trata-se de um dos melhores discos do ano, lançado na terra dos coalas e dos cangurus.


E cá está – o Ângulo divulga, neste momento, um dos melhores discos do ano. Pelo menos, na categoria de discos de Rock, lançados em território australiano.


Passemos à categoria de músicos da década e/ou músicos mais influentes:
Ora bem, Rowland S. Howard fez parte (juntamente com Nick Cave) dos Birthday Party que, para mim (e para outra pequena minoria, donde desconfio fazer parte, igualmente, o caro Boécio, escriba intermitente deste blog), lançaram um dos melhores discos rock de sempre: Junkyard (de 1982).


Howard era um dos compositores de serviço desta banda, e fez, igualmente, parte dos Crime and The City Solution (quem?), These Immortal Souls (santinho), tendo, também, lançado um belo disco a solo – Teenage Snuff Film, em 2000 (podiam mencionar o nome de alguma coisa de que tenhamos ouvido falar?).


Mais importante do que tudo isto, Rowland Howard influenciou muito o autor deste post. Quando este escriba começou a tocar guitarra, copiava, descaradamente, o estilo do Mestre australiano – na forma como mexia o cabelo, ou começava a bambolear pelo palco, em movimentos circulares.


No fundo, tudo o que sou hoje, quando ando por aí, a olhar para o chão, ou com um ar esgazeado, devo-o a Rowland S. Howard, o homem que vestiu o paletó de madeira no passado dia 30 de Dezembro. Os meus sinceros agradecimentos.


A nível musical, nunca lhe cheguei aos pés. Afinal, Rowland S. Howard é um dos guitarristas do ano, da década, dos últimos 25 anos, e dos últimos 35 anos (até me arrisco a dizer que é um dos melhores guitarristas dos últimos 37 anos e meio).
Vou meter dois pequenos vídeos de homenagem. No primeiro, vemos Howard, nos tempos dos Birthday Party, em Estúdio, a criar o tema “Jennifer’s Veil”.


No segundo vídeo, assistimos a um excerto do filme de Wim Wenders que em português deu pelo nome de “Asas do Desejo”. Quem viu esta película deve saber que se trata de um dos melhores filmes dos últimos 30 anos. Lá pelo meio, aparecem os Crime And The City Solution, a tocarem o tema “Six Bells Chime” (composto por Rowland S. Howard).


Matt Bellamy, o miserável guitarrista dos hediondos Muse (uma das piores doenças prolongadas deste início de milénio), foi considerado pela Revista Total Guitar, o guitarrista da década.
Em “Asas do Desejo”, os anjos (que conseguem ler os pensamentos das pessoas), não tentam saber o que pensa Rowland S. Howard. Mas ele, certamente, enquanto mexe o cabelo, e bamboleia pelo palco, saberá que Matt Bellamy, guitarrista da década, nunca teria lugar naquele filme. Quando muito, aparecerá num qualquer Avatar de futuro, a tocar a sua guitarra estridente, e virtuosa, em cima de algum pássaro virtual, apenas visível com óculos para 3D, numa sala de cinema cheia de pipocas.


Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

Não Leia Na Diagonal! Assine Esta Petição, e Faça, Neste Natal, Uma Boa Acção

O meu envolvimento nas lutas pelos Direitos dos Seres Vivos mais Desprotegidos iniciou-se quando eu já tinha uma idade relativamente avançada. Durante o Liceu, cheguei a ridicularizar algumas tomadas de atitude de certos colegas meus, que eram identificados como sendo de esquerda. No Colégio onde estudei, o único slogan usado pelos meus amigos (e por mim), que se pudesse assemelhar, minimamente, a uma preocupação cívica era o famoso “Destrói as Ondas, não as praias”, que eu ostentava, orgulhosamente, nas tshirts, por alturas de Verão (se bem que a minha única experiência no combate às ondas se tenha cingido a meia dúzia de tentativas falhadas para me manter à tona de água, em cima de pranchas de Bodyboard compradas no supermercado, por meia dúzia de tostões). Agora que penso no assunto, recordo-me de outra frase, que tinha estampada, noutra tshirt, e que rezava, mais ou menos, o seguinte: “Sempre que dás um peidinho, morre um golfinho”.

Seja como for, comecei, a interessar-me, vagamente, pelos Direitos dos Animais, apenas na Faculdade. E isto deveu-se a motivos que consideraria tudo menos altruístas. Uma tarde, encontrei uma bela miúda a distribuir panfletos. Cheio de curiosidade, aproximei-me, e tentei entabular conversa:

- Então, estudas por aqui? Estás a distribuir panfletos sobre a Festa do Baptismo do Vómito ao Caloiro?

A rapariga dirigiu-me um olhar gélido, e cheio de desprezo, que me fez estremecer, e que nunca esquecerei. Sem me responder, deu-me um panfleto, para a mão. O panfleto mostrava um touro, a esvair-se em sangue, e com uma legenda, que dizia o seguinte:

- Homem, homem, porque me persegues? (numa inteligente alusão ao momento da conversão de São Paulo de Tarso, no seu caminho para Damasco).

Foi como se um resplendor de luz tivesse caído do Céu, e me tivesse iluminado, naquele glorioso instante. A partir daquele dia, tornei-me, durante dois anos, um fervoroso opositor das touradas, garraiadas, largadas, e tudo o que estivesse levemente relacionado com a humilhação dos Touros. Esses anos coincidiram com o meu namoro com a activista dos direitos dos animais, acima mencionada.

Fiz parte das “Jornadas Ibéricas contra os touros de morte”, do Movimento “Transformem as Praças de Touros em museus contra o holocausto taurino”, do Movimento Politico “Fuzilamento imediato de todos os Toureiros” e autor do famoso slogan “O Bom forcado está enforcado”.

Mas tudo o que é bom acaba. Zanguei-me com a minha namorada, e abandonei a causa taurina. Entretive-me a acabar o Curso, a arranjar um emprego num Escritório, onde fiquei durante uns anos.

A minha promissora carreira na Luta pelos Direitos dos Seres Vivos mais Desprotegidos poderia ter ficado por aqui, caso não tivesse recebido um email, que se revelou providencial.

No email, pediam para assinar uma petição, para salvar o Robert. Tratava-se de um gato siamês, com 5 anos de idade, e que era usado como cobaia, para todo o tipo de experiências, na Universidade de Utah.

Comovi-me, ao ver as fotos do bicho. E resolvi assinar a petição.
Posso dizer, com orgulho, que a minha assinatura (juntamente com outras 15 mil) contribuiu para libertar o Robert das garras dos seus temíveis captores.

Entusiasmado, juntei-me a várias Associações de Defesa dos Animais, que me inundavam a caixa de correio com novos (e urgentes) pedidos.
Fazem parte do meu currículo (entre muitas outras), as assinaturas de petições para libertar os seguintes animais:

. A Chimpanzé Wanda (usada em experiências da NASA), em Novembro de 2008…
. O elefante Tommy (usado em diversos, e repugnantes truques de circo), em Fevereiro de 2008…
. O golfinho Malaquias (utilizado num Zoomarine, no Estado de Rio Grande do Sul, no Brasil), em Julho de 2007…
. A família de focas McCormack (um conjunto de 20 focas, que estava prestes a ser chacinada nas Ilhas Faroe), em Abril de 2006…
. A defesa de fungos e pequenos microorganismos (que estavam em vias de ser exterminados, na construção de um resort de luxo, nas Seychelles), em Outubro de 2005…

E tantos outros acontecimentos….

Abandonei o emprego no Escritório, tornei-me vegetariano, e passei a fazer parte da Direcção de uma famosa Associação de Defesa dos Animais. Participei em centenas de Colóquios, e Acções de Formação. Os meus trabalhos teóricos estão editados em várias línguas, e assinava colunas de opinião em, pelo menos, cinco blogs.

Mas, cá dentro de mim, e da minha consciência, continuava a haver inquietação, inquietação. Era só inquietação. Porquê? Não sabia, não sabia ainda. Mas havia qualquer coisa que estava para acontecer, qualquer coisa que eu devia perceber. Qualquer coisa que eu tinha de fazer, que devia resolver. Porquê? Não sabia. Mas sabia que essa coisa é que era linda.

A expressão Serendipidade advém da palavra inglesa Serendipity, e foi criada pelo escritor inglês Horace Walpole, no Século XVIII.
Segundo o meu entendimento, trata-se de um neologismo, que se refere às descobertas afortunadas feitas, aparentemente, por acaso.

Devo a uma refeição vegetariana, ocorrida num restaurante (lá para os lados do Príncipe Real) a descoberta da minha nova vocação. Não sei se a expressão serendipidade se aplicará, verdadeiramente, ao meu caso. Mas, se eu não me tivesse tornado vegetariano; se não sentisse um profundo envolvimento na luta de todos os seres vivos desprotegidos; e se não tivesse feito a fatal pergunta ao meu amigo Manuel…nada disto teria ocorrido.

Foi durante o jantar. O Manuel devorava, imensamente, satisfeito, uma pratada de tofu, quando resolvi colocar-lhe A questão:
- Manuel, de que é feito o tofu?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- O tofu é um alimento produzido a partir da soja.

Insatisfeito com a resposta, perguntei-lhe:
- Manuel, o que é a soja?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- A soja é um grão rico em proteínas, cultivado como alimento, tanto para humanos, como para animais. Pertence à família Fabaceae (leguminosa), assim como o feijão, a lentilha, e a ervilha.

Insatisfeito com a resposta, perguntei-lhe:
- Manuel, o que é o grão?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- O grão é um tipo de fruto, com uma semente presa ao pericarpo, em toda a sua extensão.

Insatisfeito com a resposta, perguntei-lhe:
- Manuel, o que é um fruto?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- Em termos botânicos, o fruto é uma estrutura presente em todas as angiospermas. Deriva do ovário das flores.

Insatisfeito com a resposta, perguntei-lhe:
- Manuel, o que são flores?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- A flor é a parte das plantas onde se encontram os seus órgãos sexuais.

Insatisfeito com a resposta, perguntei-lhe:
- Manuel, o que são as plantas?
Com a boca cheia, respondeu-me:
- Ora, como todos sabem, o Reino Plantae, Metaphyta, ou Vegetabilia, é um dos principais grupos em que se divide a vida na Terra…

Entusiasmado com a descoberta, gritei:
- Então, se a planta é um Ser Vivo, estamos, neste momento, a devorar Seres Vivos!
Com a boca cheia, o Manuel respondeu-me:
- Ora, obviamente! Pensavas que estávamos a comer calhaus?

Indiferente à indiferença do Manuel, cuspi, de imediato, toda a comida que me restava na boca, e pousei os talheres sobre aquele prato de cadáveres plantícios.

Naquela noite, abandonei a Direcção da Associação de Defesa de Animais, e passei a dedicar-me, com afinco, à Associação de Defesa de Plantas, que criei, entretanto, e da qual sou o Presidente.

Apesar de a nossa actividade ter começado muito recentemente, já fizemos algumas acções dignas de relevo, das quais destaco:
- O bombardeamento, com Cocktails Molotov, de um restaurante vegetariano, sito perto da Avenida da República, em Novembro de 2009.
- O rapto de um famoso cozinheiro de pratos vegetarianos, em Outubro de 2009.
- O Protesto em frente à Assembleia da República, com cartazes alusivos ao tema, e com direito a uma nota de rodapé na Dica da Semana, na sua Edição de 25 de Setembro de 2009.

Caro amigo, graças a sua assinatura nesta Petição, conseguimos libertar dois quilogramas de seitan, e cinco quilogramas de tofu, que poderão, desta forma, passar um Natal em Segurança.
Mas a luta está apenas no início!

Quanto à pergunta que me fazem com mais frequência: “Como é que se alimenta, caraças?”, posso, somente, responder, que estou a desenvolver um método próprio de Fotossíntese, que me permitirá, no futuro, acumular energia a partir da luz, para uso no meu metabolismo.

Até conseguir processar a Fotossíntese no meu corpo (tarefa que deverá durar algum tempo a ser aperfeiçoada), limito-me a comer bolachas de água e sal. Como é do conhecimento público, o sal é um composto iónico, e a água é uma substância química. Por isso, não há problema.

Obrigado, de novo, pelo seu interesse. O seu envolvimento é realmente importante.

Com os melhores cumprimentos, subscrevo-me, com amizade

O Presidente da AMDTS- Associação Mundial de Defesa do Tofu e do Seitan

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Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Últimas recomendações

O andar debaixo do meu, está vago. No andar de cima, mora o Serial Killer. Não o conheço bem, mas sei que se mudou para aqui cerca de dois anos depois de mim. Ambos temos um feitio reservado. Eu, pouco sei da vida dos restantes habitantes da rua, e suspeito que o meu vizinho, até devido à sua ocupação, incorra pelo mesmo caminho.

Tenho a vaga ideia de que trabalha para um qualquer, e obscuro, Departamento do Estado. Para mim, nem é novidade, sou filho de Funcionários Públicos.
Não nos falamos, aparte os formais, e ocasionais cumprimentos de ocasião, quando nos cruzamos nas escadas. Apesar disso, considero que temos uma boa relação.

O meu vizinho é muito calado. Nunca mete música (pelo menos, que se oiça), não ouve televisão, e não fala alto, nem ao telefone, nem com qualquer visita que receba. Suspeito que a primeira coisa que faça, quando chega a casa, seja tirar os sapatos, e calçar umas pantufas. Os seus passos são suaves, indistintos. O quarto do meu vizinho é mesmo em cima do meu, e o nosso prédio, muito antigo, e com soalho em madeira, é bastante propício à ocorrência da propagação do som.

Todavia, e mesmo quando está a cometer um homicídio, o meu vizinho nunca deixa de ser bastante cuidadoso. Nunca ouvi ninguém gritar, quando muito, distingo um suave murmúrio, ou gemido, quando estou deitado, na cama, sem conseguir dormir. Isto é espantoso, e louvável, pois suspeito que o meu vizinho cometa os seus homicídios no quarto, para onde atrai as vítimas, já bastante bebidas, depois de uma noite intensa de copos. Penso que as matará sem derramamento de sangue (talvez por asfixia?). Digo isto, porque o soalho contém algumas frinchas, e seria bem possível que alguma gota caísse para o meu quarto.
Contudo, posso estar apenas com conjecturas. Se calhar, ele até coloca, previamente, um lençol no chão, para que o sangue da vítima fique localizado, e não se propague.


Os meus amigos gostam particularmente do vizinho de cima. Há, todos os fins-de-semana, enormes jantaradas, em minha casa, para as quais não convido nunca menos de trinta pessoas. Bebemos bem, e fazemos o máximo de barulho possível. Às vezes, organizamos um jantar temático, a que damos o nome de “Jantar – Mistério”: a cada pessoa é dado um papel, com o personagem que tem de desempenhar, e indicações, a que tem de obedecer. Existe um homicídio, e algum dos presentes é o culpado. Os outros, terão de adivinhar o móbil do crime, a arma, e, claro, o autor do crime. Quando adivinhamos quem matou quem, abrimos garrafas de vinho, e bebemos, efusivamente.
Há sempre vários DJ Sets, e nunca acabamos as nossas festas antes das 6 da manhã. Escusado será dizer que o meu vizinho nunca se queixa do barulho. Desconfio que até lhe agradem estas festas (sempre está mais à vontade, nas suas próprias actividades). Se eu não soubesse que ele tem um feitio reservado, até o convidaria, uma noite, para jantar cá em casa.

Deve aturar muito barulho, que lhe será, obviamente, incómodo. Durante a semana, gosto de praticar no Trompete, e sinto-me mais inspirado a tocar por volta das duas da manhã. Ora, sabendo (como sei) que o meu vizinho sai de casa, antes das oito da manhã, para trabalhar, apenas me posso sentir grato por nunca me ter dito nada (honra lhe seja feita).

O meu vizinho é prestável. Os funcionários da Câmara Municipal (numa excelente iniciativa, que aproveito para louvar, e aplaudir) distribuem, gratuitamente, todos os meses, e em todas as casas do bairro, sacos pretos, para deitar o lixo. Graças a isso, quando vou ao supermercado, nunca tenho de comprar sacos de plásticos. Do mesmo modo, em casa, tenho sempre dezenas de sacos de reserva, caso venha a precisar. Quando ficam cheios de lixo, abro a porta da rua, que dá para as escadas, e pouso os sacos no patamar de acesso à casa. Isto porque os contentores mais próximos ficam a uns bons 500 metros e, muitas vezes, não tenho paciência para sair à rua.

E o que faz o meu vizinho? Todas as manhãs, e sem eu lhe pedir, recolhe os meus sacos, e desembaraça-se deles. Porquê? Não sei bem. Talvez para misturar, e camuflar, os bocados dos corpos das vítimas, que desmembrará, previamente, em casa.
Uma vez, quando deitei fora um recipiente cheio de lulas à Sevilhana, que deixara azedar, por descuido, pensei, por instantes que, daí a umas horas, as lulas poderiam estar a fazer companhia, no mesmo saco, à cabeça de alguma pobre vítima. Pensamentos tolos, não? Eheh.

O meu vizinho é muito asseado. Às vezes, espreito pelo ralo da porta, e vejo-o a fazer limpezas, nas escadas. Ele lava a sua casa, constantemente e, pelas frinchas do soalho, entra-me sempre um suave odor, indefinível, mas agradável, que me recorda, nem sei bem porquê, a minha casa de infância.

Agora, e mudando um pouco de assunto: não sei se vais conhecer a minha mulher. Ontem à noite, estava a fazer o jantar. Já era um pouco tarde e, enquanto preparava uma salada, lembrei-me que não tínhamos vinagre balsâmico. Distraído, disse à minha mulher para ir bater à porta do vizinho, e perguntar-lhe se ele não teria um pouco de vinagre, que pudesse disponibilizar.

Já se passaram umas horas, e ela ainda não voltou. Entretanto, comi uma lata de atum, para enganar a fome, e desisti da salada. Podem estar apenas a conversar, um com o outro (ainda não te contei, mas o meu vizinho tem uma aparência agradável, é alto, com um corpo atlético). De qualquer forma, as minhas últimas duas namoradas, a quem eu mandara, igualmente, fazer um pedido ao vizinho, nunca voltaram.O Paul Simon tem uma música em que diz: "There must be 50 ways to leave your lover". Eu só conheço uma. Mandá-las pedir vinagre balsâmico.

Seja como for, enquanto comia, às garfadas, o atum de lata, deu-me aquele spleen, que costumo sentir nos domingos à noite, especialmente durante os meses de Inverno, e pus-me a tocar no Trompete uma música do disco Chet Baker Sings, “There will never be another you”. Fiquei melhor, e ainda fiz algumas partidas de poker, na net. Agora, vou-me deitar, tenho de me levantar cedo, amanhã.

Chegas às 18 horas, não é? A cidade tem duas estações de comboio, sais na PRIMEIRA. Depois, ou apanhas um táxi, ou vais de metro, pois há uma estação mesmo ao lado. Segues pela linha VERDE, e sais na QUINTA estação. A minha rua fica mesmo junto à saída.
Não tens de agradecer, é um prazer acolher-te em minha casa durante alguns dias. Amanhã, contas-me melhor o que tens feito nestes últimos meses. Se tiveres alguma dúvida, liga-me para o telemóvel.
Ah, o número do meu Prédio é o 120.

Quando chegares, toca à porta. Não te esqueças, é o segundo andar. O andar debaixo do meu está vago. No andar de cima, mora o Serial Killer.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

O Movimento Artístico dos 39 Graus - 2ª Parte

Foi em inícios de Dezembro. Mascarenhas estava constipado, e com muita febre (39 graus, como explicou, mais tarde). O corpo tremia-lhe, e não parava de espirrar, e tossir.
Apesar de tudo, não quis deixar de passar pela Tasca. Sentou-se à mesa do costume. Os amigos olharam-no com simpatia, e uma certa preocupação, e perguntaram-lhe se já tinha tomado medicamentos para a constipação. Depois, retomou-se a conversa.
Luís reparou que uma das suas colegas de mesa estava a utilizar um caderno, e uma caneta (na Tasca, são dois objectos muito comuns – todos escrevem poesia, ou algum Manifesto Artístico, ou pintam, ou desenham…)
Pediu à amiga que lhe emprestasse a caneta, e o papel e, “num rasgo de criatividade febril” (a chalaça não é minha, vem na autobiografia de Mascarenhas), escreveu a piada que o tornou célebre, e que viria a definir todo o Movimento Artístico “Os 39 Degraus”. Eis uma reprodução da imagem, como vem na Antologia Cómica de Luís Mascarenhas:


Pergunta: O que é isto?



















Resposta (ou punchline) : é um Triângulo Amoroso

A piada foi esta. Contém, pelo menos, dois indícios que nos levam a prenunciar o humor do Movimento 39 Graus. A saber: a conjugação entre várias manifestações artísticas (neste caso, a escrita e o desenho, se bem que ainda numa fase bastante rudimentar); a própria criação da anedota (sob o efeito de uma febre de 39 graus).

Não se sabe se por comiseração pelo estado de saúde de Mascarenhas, pelo estado de embriaguez geral, ou por simples entusiasmo genuíno, mas a verdade é que toda a irmandade da Tasca se riu, em uníssono, num momento de euforia, que foi, por acaso, captado pelo futuro fotógrafo do Movimento 39 Graus (poderão consultar a imagem na fotobiografia “Humor Sempre a Aquecer - os 10 anos do Movimento 39 Graus”).

Durante o resto da noite foram criados os Princípios Fundamentais do Movimento, que assentavam em alguns pilares, como estes dois:
. A conjugação entre vários tipos de Artes (que poderiam ir desde a pintura usando, estritamente, cinzas de cigarros; a criação de poemas com os rótulos de garrafas Super Bock; música experimental feita à base de uma jukebox estragada, ….) num único objecto final.
. Obrigatoriedade de criar e representar uma Obra de Arte apenas quando os Artistas nela intervenientes estivessem, pelo menos, com 39 graus de temperatura e/ou num forte estado de quase inimputabilidade.

Mascarenhas, o Papa do 39 grauísmo, é inflexível neste aspecto. Muitos dos artistas deste movimento tomam elevadas doses de álcool, para aumentar o grau de inconsciência relativa (posição contestada, mas tolerada, por Mascarenhas, que prefere utilizar a pureza do Estado Febril ao natural. Por outro lado, Mascarenhas fica desagradado com o modo caótico e violento com que acabam certos espectáculos do Movimento 39 Graus, por causa do consumo excessivo de álcool e substâncias ilícitas- vide Natal dos Hospitais 2006).

Muito se poderia dizer acerca deste Movimento, mas o tempo já vai longo e, como diria o seu Artigo nº8: “nunca escrevas obras que as pessoas leiam, apenas na diagonal”.

Na Edição do próximo mês, falaremos, mais aprofundadamente, do Princípios Basilares do Movimento 39 Graus. Falaremos, ainda, com o conceituado Jurista Dr. Jodi Gallo, sobre a imputabilidade (ou não) das acções de Luís Mascarenhas na sua Esfera Jurídica e, ainda, das bombásticas colaborações entre o Movimento 39 Graus e o Movimento do Rock Terrorista (encabeçado pelos míticos Steve McCormack; Rufus McGerrick e Duncan McMamoth, A.K.A., J.B.).


Para finalizar, mostramos uma imagem da primeira Obra Colectiva do Movimento 39 Graus, que pega nas obras de vários pintores Impressionistas do Século XIX, e mistura-as com filmes de culto do Século XX, como este de Woody Allen, que se vê na imagem.
A obra encontra-se, neste momento, exposta na Colecção Berardo.




















Como já devem ter adivinhado, trata-se do famosíssimo "Take the Monet and Run"

O Movimento Artístico dos 39 Graus - 1ª Parte

Alguém disse, uma vez, que aos doentes tudo se perdoa, e esse preceito aplica-se, na perfeição, a Luís Mascarenhas, o mentor, e fundador do Movimento Artistico “Os 39 Graus”, e um dos humoristas (e artistas) mais populares, conceituados, e (porque não?), polémicos, da sua geração.

Ao princípio (e isto, digo-o com sinceridade), ninguém lhe auguraria um futuro tão brilhante. Aluno apagado, na escola, macambúzio, sempre calado, sentado, na mesa mais longínqua da sala. Não abria a boca quando os colegas contavam uma anedota, nem ripostava quando gozavam com ele.

Duvido que algum colega de Liceu se lembrasse de si, caso não se tivesse dado o estranho caso de Luís Mascarenhas se tornar famoso. O mesmo se diria dos seus colegas da Universidade, para onde transitou a seguir. Era um Curso de Economia, Gestão (ou seria Engenharia?). De qualquer modo, não suspeitaríamos encontrar um Artista Cómico (nem sequer um Artista) naquele indivíduo de camisolas demasiado largas, calças demasiado curtas, cabelo demasiadamente demasiado extra – ordinário…

Fica desses tempos a alcunha que lhe davam, e que perdura até hoje: “Qual Luís?”. Isto deve-se ao facto de os professores perguntarem, pelo Luís Mascarenhas, nas aulas, pois este faltava mais vezes do que seria desejável. “Qual Luís?”, era a resposta, sincera e invariável, dos seus colegas.

(Dizem que a sua primeira namorada respondeu o mesmo, aos seus amigos, quando estes perguntaram por ele, uns meses depois de terminado o namoro, e quando já se estranhava a ausência do futuro humorista).

A vida de Luís mudou quando, ao terminar o Curso, foi trabalhar para um Escritório esconso, junto a uma Tasca, que mais parecia um Saloon, num antigo bairro da cidade.
Como não tinha nada que fazer por casa, Luís passou a frequentar, diariamente, a citada Tasca, e rapidamente se tornou familiar de todos os outros clientes, que eram, tal como ele, frequentadores assíduos da dita espelunca.

Trocavam impressões sobre todo o tipo de assuntos e, um dia, depois de uma conversa mais animada, e mostrando um índice de confiança elevado, Luís resolveu contar a sua primeira anedota. Os resultados foram desanimadores. Os seus interlocutores desviaram o olhar, envergonhados e constrangidos. Depois de uns segundos de silêncio, a conversa sobre futebol retomou, e todos fingiram que nada se passara.

A anedota foi reunida, mais tarde, no Volume de Raridades, Anedotas B, e Anedotas Iniciais de Luís Mascarenhas (entretanto esgotado), e reproduzimo-la, agora, com a autorização da Editora:

“O Abominável Homem das Neves (ou Yeti) andava triste, e solitário, nas suas cavernas dos Himalaias, e andava a precisar de sol, e miúdas. Por isso, comprou um bilhete de avião para o Algarve, e foi para um apartamento em Albufeira. Como era bastante peludo, e sabia algumas (poucas) frases em português, e em inglês, resolveu engatar uma bifa, fazendo-se passar por português.
Levou-a para o seu apartamento, e a bifa foi para a casa de banho, arranjar-se. Passados vários minutos, e uma vez que a bifa não saia da casa de banho, o Abominável Homem das Neves, arrombou a porta, com um estrondo. De rajada, perguntou à bifa:
- Are You ready?
Ao que a bifa respondeu, aterrorizada:
- Not, Yeti!!!”

Fim da citação. A anedota pretendia fazer um trocadilho entre as palavras Yet (not yet), e Yeti, mas perde-se em grandes explicações, para além de ter uma punchline demasiado fraca.

A carreira de Mascarenhas poderia ter-se ficado por aqui, não fosse um episódio casual, e decisivo, ocorrido numa fria tarde do mês de Dezembro.

(fim da primeira parte da reportagem)

Terça-feira, Novembro 17, 2009

O Meu Amigo Zé Miguel

Gosto bastante do Zé Miguel, e considero-o um bom amigo.

Curiosamente, não posso dizer que o nosso primeiro encontro tenha sido particularmente auspicioso. Apertou-me a mão, nervosamente, enquanto fumava um cigarro, com a outra mão. Pediu-me desculpa, explicando, atabalhoadamente, o seu atraso, com a necessidade de comprar comida para o filho, facto que o obrigou a estar demasiados minutos na fila para pagar, no supermercado.

Surpreendi-me. Não encontrei resquícios de paternidade naquela cara macilenta, e envelhecida. Detectei-lhe, de imediato, os dentes prematuramente apodrecidos, e o olhar esgazeado, provavelmente alimentado por cocaínas, anfetaminas, e outras palavras terminadas de um modo semelhante.

Sem mais delongas, deu-me as chaves da sala. Em troca, paguei-lhe a parte da minha renda corresponde àquele mês.

Agora, peço-vos desculpa, caros leitores, pois confesso que a minha memória se tornou um pouco turva (coisa de Artistas). Na verdade, nem me recordo muito bem para que era utilizada a sala. Sei, apenas, que eu, e mais uns quantos Artistas, partilhávamos o mesmo espaço, cada um com o seu horário de “trabalho”. O Zé Miguel, por sua vez, era o nosso porta-voz, e entregávamos-lhe o dinheiro das nossas rendas, para que ele pagasse ao senhorio. Mas não me lembro se estávamos perante um atelier de Pintura, Escultura, ou Design. Ou utilizaríamos a sala como Estúdio de Ensaio das nossas bandas? Ou como local de ensaio para as nossas Peças de Teatro? Na verdade, pratiquei, em tempos, todas essas formas de Arte. E arrendei, igualmente, muitas salas, para esses efeitos, um pouco por todo o país. Por isso, não estranhem, em demasia, estas lacunas de memórias, e passemos ao que verdadeiramente interessa.

E, falando com verdade, assim servida nua e cruamente, direi, assim de rajada, que utilizei aquele Estúdio umas duas vezes. Para continuar a falar com verdade, e nada mais que a verdade, acrescentarei que, enquanto lá estive, não voltei a ver o Zé Miguel, nem voltei, sequer, a pensar nele.

Por isso, quando saí do Estúdio, nem me lembrei de o avisar. Deixei, somente, de lhe pagar a renda. Uns tempos depois, cruzei-me com ele, e disse-lhe que tinha abandonado a sala. Olhou-me, sobressaltado:
- Mas vais pagar estes meses em atraso, não?
“Ah, claro”, respondi-lhe, sem pensar, sequer um instante, em cumprir essa promessa.
Uns dias depois, recebi, no telemóvel, a primeira mensagem do Zé Miguel.

Ainda a tenho guardada, como recordação do verdadeiro início dos nossos contactos pessoais. Iniciou-se a fase a que dei o nome, posteriormente, de “Fase da Amena Cavaqueira”.
A mensagem dizia o seguinte:
“Olá, tudo bem? Queres mesmo deixar a sala, e abandonar a vida artística? Pensa bem nisso! Entretanto, não te esqueças de pagar as rendas! Grande abraço.”

Uma mensagem calorosa, como podem verificar. Em resposta, disse-lhe que não ia abandonar, de todo, a minha vida artística. Convidava-o, de resto, a assistir, no futuro, a alguma exposição minha, ou a um concerto, ou performance, que executaria em algum ponto da cidade. E prometia pagar-lhe em breve, possivelmente, no dia seguinte.
“É claro que vou assistir, avisa-me! E muito obrigado por pagares os meses em atraso! Abraço”.

No dia seguinte, não paguei o valor em questão, nem no outro dia, nem no outro. Penso que me desloquei, ao estrangeiro, nessa altura. Por isso, nem lhe menti, quando lhe respondi à seguinte mensagem:
“ Está tudo bem? Já pagaste a renda? Desculpa estar a insistir, mas estou com falta de dinheiro, e o senhorio anda a chatear-me. Abraço”.

Disse-lhe que estava no estrangeiro, e que lhe pagaria, logo que voltasse, muito brevemente.
“Muito obrigado! Agradeço-te imenso o esforço!”, respondeu-me, passados cinco minutos.
Não lhe paguei o valor em causa. Um dia, atendi um telefonema, de um número fixo, que desconhecia. Era o Zé Miguel.

Parecia preocupado. Perguntou-me se já estava de regresso, e se já tinha pago as rendas em atraso.
“Vou lá daqui a bocado, sem falta! Não te preocupes!”, respondi-lhe, o mais gentilmente possível.

Posso descrever a fase seguinte do nosso relacionamento como a fase do “Descontrolo Telefónico”. Durante duas semanas, a fio, o Zé Miguel tentou ligar-me, a uma média de 20 vezes ao dia, desse número de telefone fixo. Ao ver de quem se tratava, eu não atendia, obviamente.

Até que se deu o nosso encontro, que se deu, casualmente. Uma noite, fui comprar tabaco, à Tasca do costume. Alguém me chamou. Só reparei que se tratava do Zé Miguel, passado alguns segundos. Como estava mudado! Se antes lhe notava, no olhar, uma certa inclinação para o abismo, naquele momento pude dizer que o abismo teria uma inclinação para tentar fugir do Zé Miguel, para não se eclipsar naquela demonstração cabal de miséria humana. Poupo mais descrições. Do que entendi que me dizia, depreendi que “eu era a pessoa mais difícil de ser localizada”.
Fiz um ar pesaroso, e respondi que passara umas semanas complicadas, no Hospital, mas que agora, recuperado, iria pagar o valor da renda em atraso.
Pareceu-me um pouco aliviado com a resposta, e deixou-me seguir caminho.

Durante uns dias, nada me disse, até que se deu uma viragem no teor das mensagens telefónicas. A este período do nosso relacionamento, dou-lhe o nome de “Período das Mensagens Agressivas”. Começou com esta:
“Então, pá!! Não pagas a renda! Já começo a ficar farto!”
Nem lhe respondi. Surgiram outras, piores.
“Escuta, sei que não deves ter dinheiro. Mas faz um esforço, porra! Pede a alguém! Senão, temos de nos chatear a sério. Paga-me a renda, por favor”

Ao fim de uma semana de mensagens progressivamente intimidatórias, resolvi apelar para a via emocional. Mencionei-lhe uns vagos e graves “problemas pessoais”. A partir dessa mensagem, o nosso relacionamento passou para a fase seguinte (uma das mais interessantes e ricas, a nível inter-relacional): a "Fase da Confissão".

Eis a primeira missiva do Zé Miguel, a propósito deste tema:
“Dizes que tens problemas. Isso é porque desconheces a minha vida. Estou desempregado, à beira de ser despejado. Tenho fome, Paga-me a renda, por favor.”

Ao mencionar-lhe os meus próprios problemas pessoais, fi-lo sentir-se mais à vontade, para me falar de coisas sérias:
“Os meus problemas não são só monetários. Eu sou toxicodependente, e a minha mulher quer deixar-me. E o meu filho está doente. Paga-me a renda, por favor”

Durante as semanas que se sucederam, contou-me muitos aspectos da sua vida. Soube que o Zé Miguel era órfão, quando respondeu à minha sugestão de que pedisse um empréstimo aos seus pais:
“Eu não tenho pais, morreram comidos por uns ursos esfaimados, quando foram de férias, ao Alasca, tinha eu 8 anos. Paga-me a renda, por favor.”

A história dos avós também era dramática. Eis os seus pensamentos sobre o assunto:
“Também não posso pedir dinheiro aos meus avós! O meu avô enlouqueceu, mal soube da morte dos meus pais, e matou a minha avó, e comeu-a, num acesso de loucura! Paga-me a renda, por favor”.

Nem os amigos o poderiam ajudar.
“Não tenho amigos, pá! Foram todos viver para o estrangeiro. Paga-me a renda, por favor!”
A sua própria saúde piorava de dia para dia. Tomei conta da dramática situação, quando lhe sugeri que fosse trabalhar para as obras, em Andorra, ou para a apanha da fruta, no Sul de França:
“Fui operado ao coração o mês passado! É um problema congénito! Não posso fazer esforços físicos! Paga-me a renda, por favor!”

A sua saúde periclitante afectava-lhe as próprias cordas vocais:
“Não posso ir trabalhar para um Call-Center, nem dar aulas num Centro de Explicações, estou com uns nódulos na garganta. Paga-me a renda, por favor!”.

Nesse período, voltou a ligar-me. Fazia-me chamadas de cabines públicas, às horas mais inusitadas. Naquela altura, já lhe tinham cortado o telefone, e o Zé Miguel ganhava a vida a arrumar carros. Quando arranjava os trocos suficientes, telefonava-me:
“Estou cheio de frio, pá! Hoje, não pararam carros aqui, desde as 7 da noite. Devem ter ido todos ao futebol. Tenho fome, e sede. Paga-me a renda, por favor….”, Dizia-me, antes de o telefone se desligar, com falta de moedas.

Foi nessa altura que a mulher o deixou. O filho morreu, mas como magra consolação, o Zé Miguel soube que o filho, não era, de facto, seu, mas de um velho amante da sua mulher.

Seguiu-se o período mais negro do nosso relacionamento, a que darei o nome de “Fase da Ausência”.
Estive uns tempos sem ter notícias dele. Afligi-me. De manhã, ia logo ver, ao telemóvel, se tinha mensagens da sua parte. Tentei ligar-lhe, e saber alguma coisa acerca do seu paradeiro, mas as minhas diligências revelaram-se frustrantemente infrutíferas.

Até que me ligou um dia. A sua voz denunciava uma força e vitalidade que eu lhe desconhecia, até àquele momento.
“Olá. Estive numa clínica de desintoxicação, e estou melhor. Agora procuro trabalho. Paga-me a renda, por favor”.

Confesso que fiquei bastante feliz com as novas notícias sobre o Zé Miguel. Contei logo as novidades à minha mulher, que se mostrou satisfeita, pois sabia que eu andava preocupado.
E seguiu-se a fase seguinte, e actual, no nosso relacionamento, a que darei o nome de “Fase de Bonança e Maturidade”.

Vou tendo notícias do Zé Miguel, e acompanho, com entusiasmo, o seu renascimento social. Arranjou um emprego, num Centro de Acolhimento para Toxicodependentes, dá palestras, e conselhos, a todos os necessitados, e já viu Jesus Cristo, pelo menos, em duas ocasiões, desde que deixou a droga. Ah, e retomou a sua vida artística. Haverá uma Exposição, com os seus trabalhos, na Fábrica do Braço de Prata, no próximo Sábado. A Exposição servirá, também, como pretexto para o lançamento do seu livro, onde o Zé Miguel relata todas as suas experiências dramáticas.

E deixo o melhor para o fim.
O Zé Miguel vai casar-se antes do fim do ano!
Conheceu a sua futura esposa há poucos meses, e resolveram, rapidamente, juntar os trapinhos. Parece, até, que já vem um filho, a caminho.

Serei, provavelmente, convidado para o Casamento. Se assim for, assistirei, com agrado, e orgulho, a toda a Cerimónia, e cantarei, bem alto, “vivam os noivos”.

Ainda hoje recebi uma mensagem do Zé Miguel, que rezava o seguinte:
“Depois do Casamento, vou tentar ir de Lua-de-Mel, mas estou sem dinheiro nenhum. Paga-me a renda, por favor”.

Gosto bastante do Zé Miguel, e considero-o um bom amigo.






Quarta-feira, Outubro 14, 2009

Histórias Para Crianças, Com Finais Felizes- 1

Naquele dia, a Rainha respondeu, confiante, ao seguinte Quiz: de entre todos os seus amigos de Facebook, há algum mais belo do que você?
A resposta não tardou, e enraiveceu a Rainha: havia, de facto, entre os seus contactos, uma mulher mais bonita do que ela: tratava-se da Branca Deneuve, famosa por ser famosa, e por usar belos colares de diamantes, fabricados pelo seu séquito mais próximo de admiradores, uma bizarra trupe de anões.


“Ah, mas isto não pode ficar assim”, pensou a terrível Rainha. E resolveu acabar com a saúde da pobre Branca Deneuve.
Para isso, empregou-se como sua Criada, e Assistente Pessoal. A anterior Assistente de Deneuve fora despedida, de véspera, e havia uma vaga.


A Rainha disse que vinha do Leste da Europa, o que agradou sobremaneira à bela Deneuve, que achava “giro” falar com pessoas desse país tão distante, e com um nome tão esquisito, como “Leste da Europa”.
“Como é que se chamam os habitantes do Leste da Europa? São os Lestos?”.
“Lesta vou ser eu a acabar-te com o sebo, sua idiota”, pensou a Rainha.


A Branca Deneuve começou a ditar algumas das tarefas da sua futura Assistente Pessoal.
“Olha, em primeiro lugar, fica a saber que eu sou actriz, e apresentadora de programas juvenis. Mas não consigo decorar palavras, eu sou, tipo, uma jovem que curte movimento e tar sempre a mexer-me, e sou bué desconcertada, não consigo ler duas linhas de palavras, tás a ver? Assim, vais ter de me ler os textos todos para um microfone, que está ligado a um oracular na minha orelha, pa eu ouvir e dizer tudo bem, vais ser, portanto, a minha orácula, yá?”.
“Yá, respondeu, enfastiada, a Rainha”.
“Em segundo lugar, eu curto bué frutas, mas não curto tar a tirar as garinhas das uvas, ou a tirar os caroços das cerejas. Por isso, vais fazer isso pa mim, tá? Se quiseres, podes comer as garinhas e as cascas das furtas, aí no Leste devem passar bué fome, não é?
“Yá”, respondeu, irritada, a Rainha.
“Vá, agora vai mas é trabalhar”.


A Rainha teve de fazer todos os serviços domésticos - lavar, varrer, cozinhar, e era alvo de deboches e malvadezas. Mas não esperou pela vingança. Um belo dia, pediu aos seus amigos, os animais da floresta - passarinhos, ratinhos e esquilos, para lhe trazerem uma enorme quantidade de cerejas, com os maiores caroços que encontrassem.

E assim foi. Na manhã seguinte, havia dois caixotes cheios de enormes e suculentas cerejas.
Depois, a Rainha chamou Branca Deneuve:
“Querida Patroa, veja o que a minha família me mandou, lá da Europa de Leste, em Sua Honra!”.
“Oh, que bonito!”, respondeu a nossa heroína. “Não sabia que havia tanta comida no teu País! E tem um ar tão suculento! Pensava que no teu País, a comida devia ter moscas à volta!”.
“Garanto que a fruta está toda tratada!”, respondeu a Rainha. “E já tirei todos os caroços!”.
Nem foi preciso dizer mais nada. Branca Deneuve engoliu, de um só trago, umas vinte cerejas.
Depois, empalideceu, e caiu redonda, no chão, pois ficou sufocada com os caroços da fruta.
“Oh!Oh!Oh!”, disse a Rainha, antes de se ir embora, à pressa, para casa, experimentar os novos Sapatos de Cristal que ia usar essa noite, num Baile.


O corpo de Branca Deneuve ficou inanimado, no chão. Não tardou que os anões a encontrassem. Mas não pensaram que estivesse morta. Acharam que estava, somente, a dormir. Isto porque os anões tinham estudado Teologia, e tinham lido muito Kierkegaard, que lhes tinha dado a volta à cabeça. Eram grandes fãs de “Ordet”, de Carl Dreyer. Não perceberam nada da leitura de Kierkegaard, e adormeceram a meio do visionamento de “Ordet”, mas acharam, por bem, guardar o corpo num caixão de vidro, até aparecer alguém que dissesse a Palavra que salvasse a sua patroa.

E passaram os anos. O Caixão de Branca Deneuve ficou mais concorrido que o de Lenine, e tornou-se o ex-libris da cidade. O Arquitecto Frank Gehry construiu um bonito Edifício para albergar o seu Mausoléu. O Edifício continha, também, um Auditório, para nele se realizarem Peças de Teatro de Revista, e um Casino, com muitas roletas, mesas de jogo, e bonitos espectáculos de StripTease.

Não eram poucas as celebridades que iam lá tirar fotos. O corpo de Branca Deneuve continuava belo e imaculado, e surgiram várias Associações Religiosas Pró-Canonização da pobre mártir.
As pessoas assistiam a Peças no Teatro de Revista, e saíam de lá, de joelhos, até ao Túmulo de Branca Deneuve, para pedirem um milagrezinho, uma ajuda para os males de amor, ou para ganhar na roleta.
Muitos tiravam fotos, a dar um beijo ao corpo inanimado da Nossa Heroína, depois de pagarem uma quantia à Organização do Espaço.


E eis que apareceu o Príncipe do costume, belo, viril, mas bondoso e sensível, sem ser homossexual, que se apaixonou perdidamente pela pobre Deneuve.
O Prìncipe ajoelhou-se, a chorar, junto do seu leito. Os anões segredaram-lhe ao ouvido: “Príncipe, a Branca Deneuve não está morta, está só a repousar. Para ela acordar, tens de a beijar, e dizer-lhe A Palavra”.
O Príncipe pareceu não compreender o que os anões lhe diziam. Limitou-se a beijar os lábios vermelhos, e gelados de Deneuve.
De seguida, segredou-lhe ao ouvido: amo-te!
Nesse instante, os olhos de Branca Deneuve abriram-se, e ela abriu a boca, dizendo: “Tenho fome! Não me descascam umas uvas, ou umas cerejas?”.
O Príncipe riu-se, e começou a descascar-lhe todo o tipo de fruta que encontrava. E foram felizes para sempre.

Epílogo


Para sempre? Não! Isto porque, durante a noite de núpcias, no momento em que o falo do Príncipe ia provar os outros lábios de Branca Deneuve, um enorme meteorito chocou contra a Terra, matando, de rajada, toda a sua população. De rajada, não, porque muitas pessoas, incluindo a Branca Deneuve sobreviveram, agonizando, durante uma meia hora, que pareceu durar Séculos, devido às insuportáveis dores físicas de que padecia. Deneuve ficou quase totalmente desfigurada, mas conseguiu, ainda, ver que do seu amado Príncipe apenas restava a cabeça, que estava grotescamente desfeita. Deneuve acabou por falecer quando um candeeiro em chamas lhe caiu em cima, e morreu canonizada, perdão, carbonizada.

Mas isto não foi o fim. O violentíssimo choque do meteorito provocou um desvio da rota da Terra, que colidiu com o Planeta Marte. Como num jogo de dominó Inter-Planetário, Marte chocou contra Jupiter, e assim sucessivamente, até que o Sistema Solar e todo o seu conjunto de corpos celestes, incluindo os planetas anões, asteróides e cometas, se desfizeram, numa enorme bola de fogo. O Sistema Solar chocou contra outras Estrelas da Via Láctea. Todas as seis partes que constituem a Via Láctea (núcleo, bulbo central, disco, braços espirais, componente esférico e halo) ficaram destruídas, tal como os 400 biliões de Estrelas que compunham a Via Láctea.
A via Láctea chocou contra a Galáxia mais próxima, que aniquilou a Galáxia seguinte, e assim, sucessivamente.


Todo o Universo ficou destruído. Na hora do Juízo Final, descobriu-se que, afinal, havia mesmo milhões de Civilizações Inteligentes, com Criaturas encantadoras, e cheias de esperança num futuro melhor.

Mas a Morte não foi o fim.

Em breve, todas as Civilizações do Universo descobriram que havia, de facto, vida após a morte. Mas descobriram também, para seu horror, que não existia nenhum Deus bondoso à sua espera, com anjos a tocar harpa, e cordeiros a pastar na relva.
No seu lugar, perfilava-se aquilo a que poderíamos chamar “Demónio”.


Mas este Demónio nada tinha a ver com a Criatura inofensiva imaginada por Bosch, Lovecraft, e tantos outros. O verdadeiro Demónio era bem mais maligno, o “Ser Pior do Que o Qual Nada Pode Ser Pensado” (segundo as palavras de Santo Anselmo).
As almas de todas as Criaturas do Universo foram alojadas em pequenos, e miseráveis compartimentos. Branca Deneuve e o Príncipe eram, agora, vizinhos de um Ser vindo de Andrómeda.


As almas, que cumpriam, a todo o momento, penosas tarefas, que lhes eram incumbidas pelos Demónios, mantiveram, até à Eternidade, a aparência que tinham, no momento do seu falecimento. Como tal, Branca Deneuve ficou, para sempre, com a aparência de um corpo semi-desfeito, e carbonizado. Para além disso, tinha de fazer praticamente todos os trabalhos que eram delegados no Príncipe, uma vez que deste apenas restava a cabeça, o que não era muito prático para a realização de tarefas físicas.

De todos os trabalhos, e tormentos por que tinha de passar Branca Deneuve, havia um que lhe causava um terror bem superior a todos os demais:
Todos os dias, até ao final dos tempos, Deneuve teve de descascar milhões de frutos. Isto porque os Demónios gostavam de os comer, mas não eram parvos, e não queriam ter a trabalheira de estar a tirar-lhes o caroço e as grainhas.



Quinta-feira, Outubro 08, 2009

A Fome do Artista

Quando a minha namorada foi viver para o estrangeiro, com uma Bolsa de Estudo, resolvi acompanhá-la. Em princípio, ficaríamos um ano fora. Eu estava desempregado, nada me prendia à Cidade-Berço, nem os amigos, de quem me fartara há muito, nem os bares, discotecas, ou as escassas ofertas culturais que havia ao dispor. Além do mais, não me apetecia deixar a minha namorada durante um período tão longo, conhecia a fama da sua cidade de acolhimento, e dos habitantes locais. Deste modo, ficaria por lá um ano, a viver com ela, sempre podia tentar arranjar um trabalho em Part-Time, ou poderia começar a pensar na Tese de Doutoramento.


Chegámos no final do Verão, e instalámo-nos num Apartamento, no centro. Ao princípio, tudo correu bem. Gostávamos da cidade, arranjei um emprego, como Tradutor, e com o meu dinheiro, mais a Bolsa de Estudo da minha namorada, podíamos pagar a Renda, e viver desafogadamente. O Apartamento era pequeno, mas mais do que suficiente para os dois – um quarto, uma sala, uma pequena cozinha e casa de banho.


E assim se passaram alguns meses. Deixei de comunicar com a família, e com os velhos amigos. Depressa me esqueci deles, e suponho que o esquecimento foi mútuo.


Foi numa manhã de Inverno que tive a discussão com a minha namorada. Nem recordo os motivos, mas suspeito que foi por algo fútil, como, por exemplo, eu não ter comprado um pacote de leite, na véspera, ou um qualquer filme, que víramos em DVD, na noite anterior, e sobre o qual tivéramos uma interpretação diferente. Seja como for, nessa noite, ela não regressou a casa. Nem no dia a seguir, nem no outro a seguir. Telefonei-lhe várias vezes para o telemóvel, mas estava sempre desligado, fui à sua Universidade, mas ninguém me conseguiu fornecer informações.


Quando já pensava na possibilidade de me deslocar a uma Esquadra de Polícia, ela apareceu, vinda do nada, com um ar tranquilo. Disse-me apenas que não se ia demorar, era só o tempo de pegar na mala, enchê-la com as suas roupas, e objectos pessoais, e pôr-se a andar.


Explicou-me apenas que se apaixonara por um lindo rapaz que morava noutra cidade, na ponta oposta daquele País, e que ia viver com ele.
“Podes ficar com a casa”, “para não dizeres que eu sou uma cabra megera insensível, informo-te que já paguei, adiantada, a Renda dos próximos três meses”, explicou-me, à laia de despedida, antes de fechar calmamente a porta.


Não sei porquê, lembrei-me da música da Ágata, “podes ficar com a casa do campo, o carro, mas não fiques com ele”. Sorri. Encostei-me no sofá, e adormeci durante umas horas.
Acordei cheio de fome, e acabei de devorar os parcos pedaços de comida que restavam no frigorífico.
Deixei-me ficar num estado de letargia crescente, ao longo de vários dias. Acabara de traduzir um livro há pouco tempo, e estava sem trabalho.
Com o dinheiro que me restava, comprei comida, que deu para uma semana.
Ao fim desse tempo, voltei a ficar cheio de fome. Mas não tinha coragem para pedir dinheiro emprestado, à família, talvez por uma questão de honra. Estive uns dois dias sem comer, e começava a ponderar hipóteses drásticas, como o suicídio, quando se deu o acontecimento, que, como se diz em tantas histórias e filmes, nesta frase batida, “iria mudar, para sempre a minha vida”.


Lembro-me que acordei irritado e desesperado, cheio de fome, depois de um longo e confuso sonho, que misturava comida, a minha namorada, e crocodilos que voavam (confesso que não entendi essa parte do sonho).
Num acesso de raiva, dei um pontapé na parede do meu quarto. Qual não foi o meu espanto e horror, quando reparei que, com o meu pontapé, nela abri um enorme buraco!
Peguei nos bocados de parede caídos no chão, e tentei remendar os danos. Mas reparei que os pedaços se desfaziam nas minhas mãos. Sem saber muito bem porquê (talvez um princípio de loucura provocado pela fome?), levei à boca os pedaços de parede arrancada.
Abri os olhos, de espanto: a parede do meu quarto era feita de chocolate!


Durante um dia e meio, devorei um pedaço inteiro de dois metros de largura por dois metros e meio de altura. Passado mais uns dias, já não havia qualquer separação entre o quarto e a sala.
Reparei que as paredes tinham composições diferentes: havia umas feitas de chocolate branco, outras com pedaços de nata, laranja cristalizada, ou Baileys. A mobília da casa também era saborosa - gostei particularmente da mesa de jantar, feita de chocolate negro temperado com cacau, ou do lavatório da casa de banho, feito de trufas de caramelo.


Ao fim de quatro meses, eu tinha engordado muitos quilos, e tinha devorado grande parte da casa, e da mobília.
Um dia, enquanto eu estava a comer um dos pés da cama, tocaram à porta. Era o Senhorio. Confesso que nem o reconheci, quando lhe abri a porta. Durante esses meses, mal saíra de casa, e deixara de ter contactos com os restantes membros da espécie humana. Mal me lembrava, sequer, da minha namorada. Muito menos me recordava da existência de um Senhorio, a quem tinha de pagar a renda do Apartamento que ocupava.


Penso que o meu aspecto o assustou, pois olhou-me de um modo estranho, inquieto, e balbuciou algumas palavras, como se não me quisesse incomodar.
“Peço perdão, mas notei que este mês não pagou a Renda, e…”….
Não acabou a frase. Nesse momento, já olhara em redor para todo o Apartamento. Ficou petrificado, durante um minuto ou dois.
Só conseguia dizer “o Senhor destruiu-me o Apartamento!”. Depois, abriu uma pasta, que trazia na mão, e mostrou-me um papel. “Leia!”, gritou alto.
Comecei a ler. Era o Contrato de Arrendamento da casa, que assinara, uns meses antes.
“Leia a Cláusula Quinta! Já!”.
Li a Cláusula Quinta, que rezava o seguinte: “não poderão ser realizadas obras no imóvel em questão sem prévia autorização do Senhorio”.
“Pediu-me autorização para partir o Apartamento todo, e para destruir e comer a mobília?” (nesse momento, ele olhou para o pedaço da cama, que eu ainda segurava com a mão, e que ia trincando distraidamente, enquanto lia o Contrato).
“Acho que não”, respondi-lhe.
“Eu também acho que não”, respondeu-me, colérico.


Não me recordo bem do que se passou a seguir. Sei, apenas, que houve muitos gritos, que o Senhorio me tentou atacar, que eu me defendi com uma faca de cozinha (não era feita de chocolate), e que a espetei no peito do Senhorio, que fez um estrondo ao cair no chão. Medi-lhe o pulso. Estava morto. Um rio de sangue corria, livremente, pela sala.
Sentei-me no chão, atordoado, e cansado. Depois, sem saber muito bem porquê, molhei o dedo no sangue do Senhorio, e provei-o. Era bom. Sabia a groselha.


Entretive-me a esvaziar-lhe o sangue do corpo. Colocava-o em vários copos, que engolia de seguida, depois de os encher com gelo (o sangue era quente, como a água que fica esquecida, durante uns meses, no Verão, dentro das garrafas de plástico, nos automóveis).
Cortei-lhe o corpo em pedaços, que separei, meticulosamente, e guardei-o em vários Tupperwares. Por curiosidade, resolvi experimentar o seu sabor. O cérebro era bastante agradável, parecia feito de massa pão. Os intestinos sabiam a aletria, e o fígado fez-me lembrar um Almendrado do Algarve.


Quando estava a devorar o pulmão esquerdo, tocaram-me à porta. Cauteloso, espreitei, para ver de quem se tratava. Era a minha vizinha do lado, uma velha embirrenta.
Abri a porta, e perguntou-me, de chofre: “desculpe, mas há bocado ouvi uns gritos, vindos desta casa. Reparei que era a voz do Senhorio. Está tudo bem?”
“Está, claro! Mas entre, por favor!”, respondi-lhe.


O corpo da minha vizinha também tinha um sabor peculiar. O seu cérebro, por exemplo, sabia a farófias. Fiz uns batidos deliciosos com sucos gástricos, que misturei com pedaços das glândulas pituitárias. O seu exoesqueleto era estaladiço, e crocante.

Durante os dias seguintes, entretive-me a deitar mais paredes abaixo. Fiquei com todo o andar por minha conta. Devorei a mobília da minha vizinha, como o armário que sabia a Charlotte de chocolate, ou o tapete da sala, um fantástico crepe de alfarroba recheado com Chantilly.


Mas vamos acabar com a história, que vai longa. Provavelmente, já me estarão a ler na diagonal.
Ao longo dos meses seguintes, fui conhecendo os outros vizinhos do prédio. Devorei um número indeterminado de pessoas, e executei várias obras que chamaria “Obras Estruturais de Relevo”.
Até que me tornei o único Inquilino. As melhores iguarias do prédio também estavam todas devoradas. Restavam alguns pedaços que não me interessavam (deixei, por exemplo, de lado, as mobílias que sabiam a Doces Conventuais, que nunca apreciei).


Resolvi mudar de casa. Acumulei bastante dinheiro, que roubei aos Inquilinos falecidos.
Um dia, uma bela rapariga estava a mostrar-me um quarto, para arrendar, que ficava na sua casa, e começámos a conversar. Falei-lhe do meu país, e de outros assuntos, literatura, cinema, e doces.
Fiquei nessa casa, e começámos a namorar passado pouco tempo. Nessa altura, eu já tinha ido ao médico, e descobri que tinha Diabetes Mellitus do Tipo 2. Proibiu-me, veementemente, de comer qualquer tipo de doces.


Não me importo muito. Voltei a arranjar trabalho, continuo a morar com a minha namorada, e somos felizes. Aprendi a cozinhar uns magníficos pratos de Nouvelle Cuisine, e também faço um bom sushi.
Não me esqueço de comprar leite, todos os dias, e temos a mesma opinião sobre a música que ouvimos, os livros que lemos, e os DVD’s que vemos em casa, no sofá.
Mas às vezes ponho-me a pensar, e questiono-me se as outras casas, nesta cidade, também serão feitas de chocolate.


Também acontece acordar a meio da noite, e de olhar, faminto, para a minha namorada. Faço-lhe festas na cabeça, e começo a apalpar-lhe o corpo, pensando no lindo manjar que faria com ele (sempre achei que os seus seios devem ter o gosto de Doce de Abóbora com chila). Nesses momentos, a minha namorada acorda, estremunhada, e sorri.
Sorrio, também. Ela beija-me, carinhosamente, e pergunta-me:
“Gostas do meu corpo?”
“É delicioso”, respondo, e continuo a apalpá-la.
Ela ri-se, e sussurra-me, “és insaciável”. Depois, começamos a fazer sexo, até adormecermos, abraçados um ao outro.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Os Banhistas Zombies

Contrariando a tendência geral, gosto de ir à praia logo depois de o Verão acabar. O extenso areal fica quase deserto, mesmo nos locais geralmente mais procurados, como as sombras das falésias.

Sento-me nas cadeiras vazias do ultra moderno Coconut Club, que se encontra fechado durante o dia, fora das épocas balneares, pego num livro, e leio-o durante algum tempo. Depois, levanto-me, descalço-me, e meto os pés na areia.
Ignoro os avisos que há dispersos, nesta altura, um pouco por toda a praia: “Cuidado Com os Banhistas Zombies”. Já me habituei.

O fenómeno dos Banhistas Zombies ainda não está devidamente explicado e documentado, mesmo pelos especialistas. Não se sabe exactamente em que altura aparecem. Ao contrário do que diz a sabedoria popular, presente em antigos ditados como o famoso “Não vás no Outono para a areia, que aparece o Banhista Zombie, com a maré cheia”, existem relatos de avistamentos destas criaturas durante outras Estações, como em certas manhãs de Março, antes do início da Primavera, durante o Natal, ou mesmo na Época Alta, no cume do Verão. Alguns autores mais ousados sugerem, mesmo, que a presença dos Banhistas Zombies na praia é uma constante ao longo de todo o ano, e que estes se confundem com a multidão, e que apenas são notados quando há menos gente na praia.

O ditado padece de outras incongruências. Não é verdade que surjam somente durante a maré cheia. Neste momento, está maré baixa, e já vejo, lá ao fundo, a andar em direcção à costa, uma família inteira destes espécimes.
Posso afiançar-vos, desde já, que os avisos na praia pecam por serem excessivos e alarmistas. Ao contrário do que acontece com os terríveis proboscídeos com pernas de aranha, que todos os anos reclamam, pelo menos, a vida a meia dúzia de incautos veraneante desprevenidos, nunca ouvi falar de ataques perpetrados por Banhistas Zombies. Pelo contrário, até são muito simpáticos.

Hoje, por exemplo, perguntaram se queria jogar futebol, ao que acedi. É bom jogar contra eles, as algas nos seus pés fazem-nos escorregar diversas vezes no chão, e as articulações, amadurecidas pelo sal, ao longo dos anos, ficam endurecidas, e impedem-nos de se movimentar lestamente. Ganhei facilmente a partida, tal como nos jogos de cartas, “O Burro em Pé”, e o “Peixinho”.

Depois, ficámos, como sempre, a conversar um pouco. Disse-lhes que a estrada para a praia já estava alcatroada, que a velha casa em ruínas que ficava a meio do caminho dera lugar a um Hotel de Charme de 6 Estrelas, que o dono do antigo Bar de Praia se reformou há muito, e que vendeu ao actual proprietário do Coconut Club a concessão do seu espaço, bem como o anterior pinhal que lhe estava adjacente, e que foi transformado num enorme parque de estacionamento.

Os banhistas zombies esquecem-se sempre dessas notícias, que lhes conto vezes sem conta. Falam-me, antes, das dunas da praia, ou dos pálidos vestígios que delas restam, após Invernos sucessivos de fortes enxurradas.
Explico-lhes que há muitos anos eu ia para lá brincar com as outras crianças da altura, e fingíamos que éramos piratas do Século XVII, à procura de um tesouro escavado no meio da areia. Reparo nos rostos carcomidos dos Banhistas Zombies, e num brilho que se forma nos que resta dos seus olhos.
Oferecem-me comida, mas recuso. Propõem-me jogar mais partidas de futebol, ou de ténis, ou de cartas. Perguntam se não quero nadar, com eles até à linha do horizonte.
Mas estou cansado. O seu entusiasmo juvenil, e as suas brincadeiras acabam por me fatigar. Já se aproxima o fim da tarde, vou para casa fazer o jantar, a minha mulher deve estar a chegar do trabalho. Além disso, apetece-me ler este livro, e ainda vou acabar uns processos, que tenho de entregar amanhã.

Por isso, com um sorriso, despeço-me deles. Digo-lhes “até para o ano”, meto os auscultadores do ipod nos ouvidos, e sigo em direcção ao carro. Ainda olho para trás, uma última vez, e vejo, lá ao longe, os Banhistas Zombies, a brincar no areal, lutando desenfreadamente pelas colinas, dunas de areia a fundo perdido, navegando para lá da linha do horizonte.

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Amores Pós-Verão

Não temas que seja fracturante
Pois os meus encantos são castos,
E como as rolhas tornam-se gastos,
Com tanta fermentação diletante.

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

Amores De Verão

O Ruizinho sempre fora um rapaz frágil, com a morte à espreita. Desde tenra idade que sofria de todo o género de maleitas: quando lhe pegavam ao colo, arranjava logo um torcicolo, um braço partido, quando jogava uma partida de futebol, ou uma insolação, caso apanhasse um pouco de sol. Uma pequena rabanada de vento provocava-lhe logo uma constipação, ou pneumonia. Por isso, não foi de estranhar que, já no final da adolescência, um desgosto amoroso lhe tenha causado um sopro no coração, que logo ficou tão inchado que rebentou quase todas as suas artérias. A situação era grave, exigia um transplante, e foi imediatamente internado. Todavia, cedo se percebeu que não havia coração de nenhum dador que suportasse o tamanho da dor do seu triste fado.

A sua mãe bem lhe disse: “querido filho, gosto muito de ti, mas gosto ainda um pouco mais de mim, não te cedo o coração. Quando muito, posso dar-te um rim”.

Depois de alguma hesitação, os seus médicos resolveram colocar-lhe, junto ao coração, uma bexiga de porco. Ao fim de algumas horas no bloco operatório, o Ruizinho ficou com duas bexigas, uma com a sua função normal, outra para auxiliar o sistema circulatório.

Como o leitor comum saberá, e segundo a Wikipedia, Bexiga é o órgão humano no qual é armazenada a urina, que é produzida pelos rins. É uma víscera oca caracterizada pela sua distensibilidade. Na bexiga, encontra-se a uretra (o ducto que exterioriza a urina produzida pelo organismo).

No caso do Ruizinho, a bexiga servia para guardar o excesso de sangue produzido pelo seu acalorado coração. Quando sentia uma nova paixão, e o coração era impiedosamente bombeado, logo grande parte do sangue era directamente enviado para a bexiga, para aí ser armazenado, e logo expulso pela uretra.

Por ser um assunto complexo, e de demorada explicação, poupo aos leitores os pormenores exactos sobre o modo como o sangue era expelido do corpo do Ruizinho. Posso apenas afiançar que a operação correu muito bem e, ao fim de poucas semanas, já podia levar uma vida normal, e apaixonar-se.

Os anos passaram e o Ruizinho arranjou muitos amigos e conheceu muitas mulheres.
É habitual encontrá-lo à mesa de um bar, onde segue com o olhar qualquer mulher que por lá esteja sentada, ou que acabe de entrar. Depois, confidencia aos amigos “acho que estou apaixonado”, e suspira profundamente. Bebe mais uns copos, e dirige-se à casa de banho. Regressa mais aliviado, pede mais bebidas, e paga uma rodada a todos. Em seguida, volta a ficar com um olhar ausente, distraído, e balbucia, volta e meia, as mesmas palavras de sempre. Depois, levanta-se, e dirige-se de novo à casa de banho. Desculpa-se, dizendo que bebeu muito, mas todos sabem que vai esvaziar o excesso de peso acumulado no coração.

O ritual repete-se várias vezes, quase todas as noites. Apesar de tudo, o Ruizinho é um rapaz normal, agradável, e trabalhador. Anda a pagar uma casa a prestações, e diz à mãe, com quem vai almoçar a um restaurante, todas as semanas, que há-de casar em breve, com uma mulher por quem se apaixone, e que terá muitos filhos.

A mãe dá-lhe conselhos, diz-lhe que não deve ser tão tímido, e que não deve beber tanto, parece mal um rapaz tão pacato e trabalhador sentar-se, todas as noites, a beber, à mesa de um bar.
O Ruizinho não lhe responde. Está permanentemente distraído, a olhar para as outras mesas, e responde-lhe, apenas: “acho que estou apaixonado”.
A mãe cala-se, e fica satisfeita. Pensa que o filho se há-de casar em breve. Olha, atenta, para as outras mesas, à espera de cruzar o seu olhar com o da sua futura nora. Depois, cansa-se, e pede a conta, enquanto o filho vai, de novo, à casa de banho.

Domingo, Agosto 16, 2009

Músicas Feitas Por Homens Com Pêlos Faciais- O Bigode Swingado

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

Secção Videos de Praia-1

João Coração, versão anos 70, com uma voz de cowboy, e a cantar ao pé de uma loura, numa praia sueca.

Segunda-feira, Agosto 03, 2009

O Party Animal

- Então, foste de férias para alguma ilha no Pacífico?
- Não, porque é que perguntas isso?
- É que o blog anda meio parado…
- Ah, pois…sabes como são estas coisas, no Verão…
- Mas devias actualizar isto…gosto de ter leituras de praia.
- Levas o computador com internet wireless para o meio da areia, é?
- Não desconverses. Não tens nada para contar? Uma anedota? Um entremez com o Romualdo?
- Não tenho falado com o Romualdo. Mas posso contar uma pequena história (sem muita graça, diga-se, de passagem).
- Óptimo! Olha…mas a história não tem mais de 10 linhas, pois não? É que estou de férias, e não gosto de ler textos grandes, e maçudos…
- Por acaso tem mais de 10 linhas. Mas vou tentar abreviá-la ao máximo…
- Faz-me esse favor, agradecia imenso! De qualquer forma, vou lendo aos poucos, 10 linhas por dia, para ir mantendo a cabeça ocupada.
- Fica combinado, então. Olha, vou-te contar o que aconteceu ao Rogério S. Lembras-te dele?
- Rogério S.? Não estou a ver quem é…vamos fazer uma coisa…vais contando a história, oralmente…depois reduzes tudo a escrito, e será mais fácil para mim ler tudo de seguida, sabendo, mais ou menos do que se trata…podes começar, estou a ouvir.


Ok…O Rogério S. era um Party Animal. Conheces o termo, não? Nas festas em que participava, mesmo naquelas onde não seria, supostamente, a personagem principal, acabava por brilhar gloriosamente. Foi o caso, por exemplo, do casamento do seu velho amigo André. No final da festa, todos aplaudiam e aclamavam o Rogério S., incluindo a noiva, e já ninguém se lembrava que acontecimento estava a ser festejado.

O próprio Rogério S. casou, numa bela tarde de Verão, apenas para ter o prazer de ser o anfitrião da maior festa da década. E o seu casamento não foi a maior festa da década porque foi suplantado pela magnífica festa de divórcio, organizada 3 meses depois, como pretexto para a rentrèe, depois das férias.

Como Rogério não foi baptizado em pequeno, logo tratou de arranjar a mais brilhante festa de baptizado do Século, tendo para isso, mandado encerrar várias praias inteiras, para se banhar mais à vontade no Oceano, enquanto era iniciado na fé Cristã, entre um maralhal de amigos entusiastas. Depois, mandou o padre benzer centenas de garrafas de vinho, antes de se embebedar com o sangue de Cristo.
- Agora que falas nisso, acho que fui a essa festa. Foi há quanto tempo?
- Não sei, não me lembro. Mas deixa-me continuar. Estava a dizer que o Rogério era a alma de todas as festas. Mas, no meio de toda esta contagiante alegria e entusiasmo, ele guardava um crescente rancor relativamente a uma Cerimónia específica: de entre todas as festas onde fora o Rei, apenas lhe faltava organizar uma: o seu próprio velório. Achava intolerável não poder estar consciente nesse momento tão importante. Por isso, depois de pensar um pouco, acabou por resolver o assunto de uma forma prática. Avisou o Ricardo, o seu melhor amigo, e contou-lhe o plano: Rogério ia forjar a sua própria morte. Para isso, contava com a preciosa ajuda de Ricardo, a única pessoa que iria ter conhecimento da farsa. Rogério ia arrendar uma grande sala numa Casa Mortuária junto à igreja do seu bairro. Iria, também, comprar um caixão, que colocaria no meio da sala, e onde se enfiaria, durante parte da noite, enquanto chegassem os convidados. Ricardo diria a todos os amigos de Rogério que este falecera, de véspera, pedindo-os para comparecerem. No momento em que estivessem todos a carpir as suas mágoas, o caixão abrir-se-ia, ao som de uma música qualquer, e sairia de lá Rogério, o Party Animal, apenas para começar a dançar com todos os convidados, que cairiam a seus braços, mal soubessem que estava vivo.

- Ah ah! Bela ideia! E levou o seu plano avante?
- Claro! Apesar dos protestos do Ricardo, que o avisou que os amigos iriam ficar furiosos. Mas o Rogério insistiu.
-Não sei que música escolheria para abrir a pista….talvez o Highway to Hell”…O que achas?
- Eu escolheria o “nº1 Song In Heaven”, dos Sparks. Mas continuemos com a história: numa bela tarde primaveril, Ricardo comunicou a centenas de pessoas a tristíssima notícia do falecimento de Rogério S., e o subsequente velório, marcado para as 22 horas, em ponto.
Ricardo abriu um evento especial na sua página de Facebook, com o título “Rogério S.- a Morte do Século - Velório, Hoje, às 22 horas”. Na mesma página, não se esquecia de pedir a todos que trouxessem muitas garrafas de bebidas alcoólicas “em memória do nosso querido amigo, que haveria de gostar disto”.
- Isto faz-me lembrar as últimas palavras do Picasso. Sabes quais foram?
- Sei. “Bebam por mim”, e mais não sei o quê. Adiante. Pelas 22 horas, já quase ninguém cabia na enorme Capela Mortuária. Não faltou nenhum dos amigos, familiares e antigas namoradas de Rogério S. Estavam inconsoláveis. Ajoelharam-se, durante vários minutos, junto ao caixão, a chorar. Depois, começaram a contar as histórias mais excepcionais do defunto. Rogério, que ouvia todas as conversas, dentro do caixão, estava encantado, com todas essas maravilhosas palavras de apreço, e apeteceu-lhe levantar-se, para abraçar todos os seus amigos. Mas conteve-se. Preferiu aguardar mais um bocado, pelo momento mais oportuno.
Até que começou a intervenção do Ricardo. Lembro-te que o Ricardo era o melhor amigo de Rogério, e durante todos esses anos, funcionara como o seu testa de ferro, a sombra perfeita, que nunca se evidenciava perante os amigos, face à gigante personalidade de Rogério. Mas nessa noite, face à indisponibilidade do suposto defunto, teve de fazer as honras da casa. E safou-se muito bem. Começou por consolar todos os seus amigos, dizendo que Rogério os “deveria estar, de certeza a ver, e que desejaria que eles se divertissem muito”. Abriu várias garrafas de vinho, e começou a distribuir copos por todos. Depois, começou a contar histórias divertidas do falecido. Após alguns minutos, já todos se riam.

Foi o momento apropriado para Ricardo buscar a sua guitarra, e começar a cantar alguns temas, “em memória de Rogério”. À segunda música já todos batiam palmas. Depois da quarta canção, Ricardo chamou várias amigas de Rogério para fazerem uns duetos consigo, convite esse que foi bem aceite por todas. Abriu a pista, e começaram todos a dançar em volta do caixão. Alguns preferiam dançar aos pares, outros imitavam Rogério S., tudo numa enorme animação.

Os fantásticos (e surpreendentes) dotes de Ricardo para tocar, cantar e dizer anedotas, aliados à enorme quantidade de álcool ingerido por todos, tornaram a festa extremamente animada. Até havia algumas pessoas a dançar em cima do caixão, como se estivessem em cima de alguma coluna de uma discoteca.
- Então, e o Rogério? Nunca mais saía do caixão?
- Pois, parece-me que o Rogério se sentia, no mínimo, um pouco confundido, e não devia saber muito bem o que se passava. Mas lá acabou por se levantar, aproveitando um momento em que os bailarinos que estavam em cima do caixão foram à casa de banho. Ao princípio, ninguém reparou na sua presença. Mas lá conseguiu chegar à mesa de DJ, e colocar uma música qualquer, talvez o Stairway To Heaven, ou outra coisa do género. As pessoas olharam, para ele, ao sentirem que havia um som a sobrepor-se à música do Ricardo.
Quando repararam de quem se tratava, olharam, espantadas, sem entender nada do que se passava. Mas não ficaram demasiado satisfeitas, ao contrário do que pensara o Rogério.
- Mas porquê? Não gostavam dele? Ou teriam ficado habituadas à ideia de que ele tinha morrido, e o seu reaparecimento só serviu para reabrir feridas antigas?
- Oh, sei lá... Estou só a contar a história, abstenho-me de dar interpretações. Isso fica para os ouvintes e leitores. Olha, mas vou abreviar a história. Conto só os factos essenciais: 1- O Rogério começou a pôr música; 2- os amigos foram ter com ele, para tirar satisfações; 3- O Rogério contou a história atrás mencionada, cada vez mais atrapalhado, por ver que os amigos não achavam graça à sua pequena brincadeira; 4- acabaram todos por lhe dar uns tímidos abraços; 5- O Rogério continuou a pôr música, mas poucas pessoas dançavam. A maioria dos presentes foi para o pé de Ricardo, que deixara de dar o seu concerto, e fazia, agora, também, o seu DJ Set; 6- face ao que se sucedia na sala, Rogério meteu a música cada vez mais alto; 7- Ricardo meteu, também, por sua vez, a música mais alto.
- E como é que tudo acabou?
- A certa altura, apareceu um Funcionário da Casa Mortuária, que ficou, passe a piada fácil, “mortificado” com o ambiente vivido dentro da sala.
-Ahah! Calculo! O que é que ele disse?
- Disse: “pensava que se tratava de um velório, mas afinal estou a ver duas pessoas a meter música aos altos berros, outras a dançar bêbedas, e acima de tudo…vejo um caixão aberto, sem nenhum corpo lá dentro. Uma vez que não há corpo, não há velório, e vou ter de fechar a sala”.
Os presentes fizeram um ar consternado. Afinal, até se estavam a divertir e ainda era cedo. Como tal, acercaram-se do solícito Funcionário, e disseram-lhe:
- Está enganado, senhor. Há, de facto, um corpo dentro desta sala, e estamos a velá-lo.
- “Mas onde é que está o corpo?”, perguntou o atónito Funcionário.
- Ali!
Todos os presentes apontaram para Rogério. Este, por uns momentos, ficou espantado, e continuou a meter música. Mas ao ver que ninguém dançava e que continuavam todos a olhar fixamente para si, acabou por desligar a aparelhagem. Depois, com um ar triste, foi ter com os seus amigos, e despediu-se, individualmente, de cada um. Houve lágrimas, e todos o abraçaram, efusivamente. Em seguida, Rogério entrou no caixão, deitou-se, e fechou a tampa, com a ajuda dos seus amigos. Antes de fechar os olhos, ainda reparou que Ricardo voltara a meter música. E pronto, é esta a história.
- É bonita. Vais escrevê-la?
- Acho que não. Vou para a praia.
- Fazes bem. Apareces lá no Bar Galhada, logo à noite?
- Claro! Gostava que me ajudassem a escrever uma letra pop, em português.
- Isso é uma óptima ideia! Ainda podes ir a festivais de Verão, e tudo!
- Eu sei! Além disso, estive a falar com os tipos da Flor Caveira, e eles precisam de arranjar mais uns Pastores Baptistas para a Editora.
- Já te converteste?
- Vou-me converter amanhã, já combinei com o Tiago Guillul. Podes ir assistir. Eu mandei, de resto, convites pelo Facebook para todo o pessoal.
-Boa! E vai haver música?
- Claro! Música, animação, e muita poética rock.
-Lá estarei!


Terça-feira, Julho 28, 2009

A Escolha do Ângulo- Vídeos Veraneantes- nº1- Kevin Ayers e os seus Bailarinos Exóticos

Como tem sido hábito nos anos anteriores, o Ângulo vem dar a sua modesta contribuição para a galeria de videoclips veraneantes. Desta feita, e para abrir a época de praia, fica o videoclip de "Caribbean Moon", de Kevin Ayers, lançado em 1973. É de salientar a brilhante performance dos bailarinos exóticos, e o bonito fato de marujo de Kevin Ayers. Ideal para se ouvir a caminho da Praia do Meco.


Quinta-feira, Julho 09, 2009

Sonho de menino

Parece que de uma assentada dois sonhos de menino foram concretizados quase ao mesmo tempo: o Real Madrid concretizou o sonho de menino de contratar Cristiano Ronaldo para as suas fileiras; já Deus concretizou também o seu sonho de menino, levar Michael Jackson definitivamente para os seus domínios. Parabéns a ambos.

Sábado, Julho 04, 2009

As Camisolas Dos Meus Colegas

Quando saiu a Ana Rita, em inícios de Fevereiro, houve uma semana, ou duas, de incerteza expectante. A Ana Rita trabalhava na Empresa há dois anos e meio, chegou a ser uma funcionária bastante promissora, e recebeu uma menção honrosa no Anuário Societário, logo no ano em que entrou. Todavia, nos últimos meses, o seu trabalho entrou em declínio. Teve uma separação traumática, e pareceu perder motivação quando não foi promovida a um lugar de chefia no seu Sector, quando o António Macedo saiu, ao ter sido convidado para um lugar de Director Adjunto numa Sociedade concorrente.

Por isso, foi sem grandes surpresas que soubemos, depois de ela ter ido duas semanas de férias para umas ilhas no Pacífico, que não iria voltar, ao ter acertado a sua rescisão amigável com os Altos Quadros da Empresa.

O nosso chefe apenas nos comunicou que a Ana Rita não voltaria, e que entraria outra pessoa para o seu lugar, depois de serem feitas as necessárias entrevistas, para descobrir o perfil certo e a pessoa mais qualificada a ocupar o lugar deixado vago por si.

Surgiram rumores acerca de uma contratação milionária a uma alta personalidade de uma Empresa rival, mas estes revelaram-se carecidos de fundamento, passado poucas horas.
As entrevistas estavam rodeadas de secretismo, e nunca vimos nenhum dos candidatos. Faziam-se apostas sobre o sexo, ou a idade do novo membro da nossa equipa.
As mulheres prefeririam um homem, pois cerca de 65 por cento dos funcionários eram do sexo feminino.

Foi, por isso, com alguma alegria que foi anunciado o novo Colega, numa tarde de finais de Fevereiro. Tratava-se de um indivíduo chamado Trajano Fonseca e Cunha, e o nosso Director Geral fez questão de dizer que se tratava de um incansável trabalhador, com um Currículo invejável, e que vestiria a camisola da Sociedade com grande seriedade, profissionalismo, e espírito de equipa, de luta e de sacrifício. O Director Geral comunicou que o novo funcionário começaria a trabalhar na Segunda-Feira seguinte, e que ficaria no lugar anteriormente ocupado pela Ana Rita.

Nessa Segunda Feira, chegámos quase todos um pouco mais cedo, talvez curiosos com a vinda do nosso novo colega.
Por volta das nove da manhã, apareceu o Director Geral, acompanhado de todos os outros Directores, e anunciou que nos ia apresentar a nova contratação da Empresa.
Estávamos todos sentados nos nossos lugares, no Open Space, quando surgiu o anúncio:
“Caros Funcionários, o Currículo do vosso novo colega é irrepreensível, e ele vem com grande vontade de dinamizar esta Sociedade. Espero que o ajudem na sua tarefa, tal como ele vos ajudará, certamente, e que possam vestir convenientemente a camisola da Empresa, sem que esta vos esteja muito larga. Sem mais delongas, apresento-vos o Trajano Fonseca e Cunha”!

Começámos a olhar para todos os lados, em busca de uma cara nova. Mas não apareceu ninguém. Achámos que estava escondido, dentro de algum armário, e que saltaria ao ouvir a palavra de ordem, mas tal não aconteceu. De resto, essa conduta não se coadunaria com a postura dos Directores, que eram um pouco austeros e conservadores.

Olhámos, de novo, surpreendidos, para o nosso Director-Geral, quando reparámos que ele apontava o dedo para um local específico- a secretária anteriormente ocupada pela Ana Rita. Seguimos a direcção do seu dedo, e vimos uma cadeira e uma mesa vazias, mas com o candeeiro ligado, e vários processos em cima da mesa.

O Director-Geral prosseguiu: “bem, agora que já fizemos as apresentações, espero que elucidem o vosso novo colega sobre as suas funções. Como vêem, ele já tem alguns processos em mãos. O seu email é
trajano-fonseca@gmail.com. Auxiliem-no, no que for necessário, para que ele se ambiente, e faça bem o seu trabalho, mandem-lhe coisas para o mail, caso seja necessário. Porque, já sabem: o bem-estar de cada um de vós equivale ao bem-estar da Sociedade. Até logo”.

Com estas palavras, todos os Directores se afastaram em direcção ao seu gabinete. Quanto, a nós, os restantes Funcionários, os chamados “Subalternos” na hierarquia da Empresa, mantivemo-nos calados, a olhar para a mesa do dito Trajano. Pensámos, ao princípio, que se tratava de alguma piada, e que o novo Funcionário chegaria daí a pouco. Mas tal não aconteceu, durante o resto de toda a manhã. Até nos esquecemos da habitual pausa para o café, que ocorria, religiosamente, às 10.30 da manhã, e na qual aproveitávamos para nos deslocar à Copa, para nos descontrair um pouco, estar na galhofa, e fumar um cigarro.

Embrenhámo-nos no trabalho, durante várias horas, e só tirámos os olhos dos computadores, para olhar, de vez em quando, para a mesa do Trajano, que se mantinha inalterável.
Saímos para o almoço, a Luísa olhou, directamente para o local onde estaria o Trajano, e perguntou, com uma voz pouco convincente: “queres almoçar connosco?”

Ao não obter resposta, reparei que sentiu um pequeno alívio, e seguimos todos para o restaurante. Mas não falámos da grande questão, e comentámos apenas trivialidades, os nossos pequenos fait-divers, e dramas domésticos, ou a situação política no país. Nenhum de nós o disse, mas penso, agora, que já durante esse dia, sentíamos, talvez, por mais absurdo que isto possa parecer, que o Trajano poderia estar ao pé de nós, a ouvir a nossa conversa, e talvez a transmiti-la a todos os Directores, antes que regressássemos do almoço.

O almoço demorou menos tempo do que o costume, voltámos, rapidamente, para os postos de trabalho. Olhámos, obviamente, para a secretária em causa, em busca de novidades, mas continuava tudo na mesma. A cadeira e a mesa, vazias, o candeeiro ligado, e o monte de processos, tal como tinha sido deixado horas antes.

Tomámos, rapidamente, uma decisão. Eu fiquei com o processo Antunes Fernandes, cujo prazo terminava passados poucos dias. O Martins ficou com mais outro processo, a Marta com um terceiro processo, e os outros foram divididos pelos restantes funcionários, já não me lembro bem por quais. Tínhamos de ajudar o Trajano, na sua integração, para o bem da Empresa, que era, afinal, o bem de cada um de nós.

Eu encarreguei-me de lhe mandar um mail, onde falava de todos os procedimentos que achava mais necessários à sua função. Essa tarefa ocupou-me algumas horas, e deixei algum trabalho atrasado. Como tal, só pude sair às dez da noite. Quando saí, o candeeiro do Trajano mantinha-se ligado, desejei-lhe boa noite, e vim-me embora para casa.

No dia seguinte, quando apareci, bastante cedo, por volta das 8 da manhã (ainda deixara alguns processos em atraso), reparei que o candeeiro do Trajano já estava aceso, e em cima da mesa se encontrava mais um monte de processos. Olhei para os meus colegas (que já lá estavam, sentados, com um ar cansado, e angustiado), e reparei que cada um deles tinha em cima da mesa um enorme monte de dossiers.

A Catarina disse-me: “olha, não queres pegar em alguns desses processos do Trajano?”. Hoje tenho de acabar estes 10 dossiers, não posso fazer mais nada.
Acedi, agarrei em 5 dossiers, e comecei, imediatamente, a trabalhar. Passaram as 10.30, e ninguém se levantou para a pausa do café. Olhei para o Bernardo, a Marisa e a Sofia, e vi-os a tragar, vorazmente, enormes quantidades de café, que tinham trazido de casa, dentro de umas canecas. Outros, como o Ricardo, tomaram outro tipo de bebidas energéticas.

Eu não disse nada, continuei a trabalhar. Estávamos todos absortos no que fazíamos, sem tirar os olhos do papel, ou do computador, só nos levantávamos para imprimir alguma coisa, ou para mandar algum recado importante. De vez em quando, alguém suspirava, mas olhava, sobressaltado, para a mesa do Trajano, e disfarçava o seu gesto.

Fui a única pessoa que saiu para almoçar, nesse dia. Já não aguentava aquele ambiente, apetecia-me espairecer um pouco, e dirigi-me a um desses muitos restaurantes que há na zona, comi, de pé, ao balcão, e olhei para toda aquela gente indistinta, a devorar a sua refeição o mais rápido possível, e também comi, bastante depressa, um qualquer prato do dia, daquelas febras de porco, feitas em linha de montagem, para serem preparadas e devoradas em cinco minutos, engoli tudo, sem apetite, e depois, olhei para o meu lado, onde estava um lugar vazio, e recordei-me, não sei porquê, do Trajano, e passou-me a pouca fome que tinha, pedi o café, que bebi de um trago, dei uma nota, e nem esperei pelo troco, voltei, a correr, para o Escritório.

Quando cheguei, estava tudo na mesma, apenas um monte maior de processos e papéis em cima da mesa do Trajano.
A Catarina ia dirigir-me a palavra, antecipei-me: “sim, eu sei, fico com mais alguns processos, não há problema”.

Saí às 23.30, ainda havia alguns colegas a trabalhar, desejei as boas noites a todos, e voltei para casa, quase a dormir.
Os meus problemas familiares começaram nesse dia, com a normal invocação da “falta de tempo” para a família, e para as crianças, que estavam em idade escolar, e que precisavam do acompanhamento dos pais. É certo que os deixamos em Centros de Explicação, depois de terminarem a Escola, depois têm aulas de equitação, piano, tudo o que seja possível para os manter ocupados.

De manhã, esperava-me o cenário habitual, os montes de processos em cima da mesa do Trajano. Não foi necessário pedir explicações. Peguei num monte, e pus-me a trabalhar. A partir desse dia, não mais voltei a ouvir as vozes dos meus colegas, excepto para assuntos urgentes de trabalho. Quando chegamos, desligamos os telemóveis pessoais, para não nos distrairmos, e porque reparámos que não nos sentimos à vontade para atender o telefone, ao pé do Trajano.

Passei a trazer, de casa, uma marmita, com o café, bebidas energéticas, e o almoço. Só me levanto para ir à casa de banho.
E estou quase a chegar ao fim do meu relato. Posso apenas dizer que me divorciei, entretanto, e o trabalho aumentou. Apesar disso, quase não consigo dar conta do recado.

Por isso, Trajano, desculpe mandar-lhe este mail, a contar-lhe isto tudo, mas queria que soubesse que não tenho nada contra si. Desejo-lhe tudo de bom, e espero que a camisola da Empresa lhe esteja a assentar bem. Eu, arrisco-me a dizer já está um pouco grande, para o tamanho do meu corpo. Mas chega de lamúrias. A Catarina despediu-se, e dizem que já arranjaram um substituto, que será apresentado amanhã. Estou curioso, acho que vou aparecer mais cedo, quero conhecer a nova contratação, que dinamizará, e trará, sem sombra de dúvidas, muitas mais-valias para a Sociedade.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Folheto de Promoção a 7 Hills Sunny City

Em meados do Século XXI, Portugal transformou-se numa região europeia semi-desértica. As gerações mais novas emigraram, há muito, para outras paragens (Estados Unidos, Angola, resto de Europa, China, etc.). Ficaram os mais velhos que, depois de se terem reformado, voltaram para as suas aldeias de origem. Os imigrantes, obedecendo ao velho cartaz do PNR, apanharam o avião para outras paragens.

As grandes cidades foram sendo, aos poucos, reduzidas ao abandono. Os poucos serviços remanescentes concentraram-se nas outrora chamadas “Avenidas Novas”. As pessoas que trabalhavam, diariamente, nessas Avenidas Novas passaram a habitar, exclusivamente, nas chamadas “Cidades-Satélite”, em Condomínios de Luxo de Betão, com nomes apelativos como “Convent Walls”, “Jardins do Eden” ou “Luxury Enchantements”.

Os Centros Históricos tornaram-se locais decrépitos e insalubres, e muitas ruas foram fechadas ao público, por terem prédios devolutos, e em riscos de ruir a qualquer momento.
Até que várias empresas internacionais de recuperação de Cidades Históricas Internacionais se lembraram deste cantinho à beira mar plantado, e resolveram investir em força. Ao fim de um ano, surgiram as Cidades Históricas Recuperadas de Lisboa, Porto e Coimbra.

Segue-se, agora, um exemplo de folheto de promoção da Cidade Histórica de Lisboa (agora rebaptizada de 7 Hills Sunny City, Inc.), na versão portuguesa, destinado ao público luso-luso-descendente:

“Abriu as portas ao público, no passado dia 1 de Janeiro, a Cidade Recuperada de 7 Hills Sunny City, Inc., (que antigamente se chamava Lisbon).
A velha cidade de Lisbon estava desabitada há vários anos, depois de ter assistido a uma sucessiva vaga de migrações, que a privaram de toda a sua população, que chegou a atingir os 700.000 habitantes, em meados dos anos 80, do Século Passado.

Ora, a Portuguese Delight, S.A. (empresa de Construção Civil especializada na Recuperação de Cidades Históricas, e filial da grande empresa South European Delight, S.A.) em colaboração com a Empresa de Viagens Turísticas Latino Chik, Lda, teve a brilhante ideia de recuperar totalmente o Centro Histórico da cidade de Lisbon, mantendo as casas antigas, e o traçado original das ruas, mas dotando-as de modernas infra-estruturas e de todas as comodidades de uma grande metrópole civilizada e dinâmica.


As anteriores casas foram reconstruídas, preservando a fachada original, mas modificando todo o seu interior. Por isso, e como poderão ver nas fotos do site (www.7hills-sunny-city.com) há casas para todos os gostos: desde o Modelo Urbano-Rural 1, com lareiras incorporadas, e lenha artificial especial, que parece mesmo arder (todas as casas têm aquecimento central), até ao Modelo Urban Ultra-Chik, que funciona como um Condomínio Fechado.
As habitações possuem aspectos comuns (mobílias antigas em castanho, cozinha completamente equipada, televisão a cores e com TV Cabo, internet wireless…).

Todas as casas têm funcionários ao seu dispor, recrutados de entre os herdeiros dos antigos habitantes da cidade, e que fizeram previamente um Curso de Formação. Os funcionários (que são de origem portuguesa pura, o mais próximo possível de D.Afonso Henriques, e sem genes desviantes, descaracterizadores desta raça) vestem-se a rigor, com os trajes originais “Alfacinhas”, e estão imbuídos da pronúncia original desta cidade sud-europeia. Os funcionários sabem, obviamente, outras línguas.

Para além disso, cada um deles recebeu formação específica numa determinada habilidade típica lisboeta. Há funcionários que sabem, por exemplo, pescar nos barcos típicos portugueses, ou outros que sabem fazer um dos desportos típicos portugueses, a Tourada.
Como existe uma modalidade de “Turismo Por Motivações”, há, todos os dias, cursos de formação para todos os interessados que queiram aprender as artes portuguesas!

Sinta-se como um verdadeiro lisboeta e experimente ser varina, aguadeiro, amolador, poeta ou fadista durante um dia!
As actividades serão filmadas, e os interessados poderão mostrá-las aos colegas de trabalho, quando voltarem ao trabalho, no seu país de origem!
Um pouco por toda a cidade ouvirá, ainda, as vozes dos antigos habitantes, pois a Portuguese Delight, S.A., teve o cuidado de fazer uma recolha etnográfica, onde obteve os sons originais de Lisbon, e as vozes de anteriores habitantes. Para este efeito, há megafones, espalhados por todas as ruas, reproduzindo fielmente todos os sons que se ouviam há 50 anos, para que os visitantes se sintam transportados no tempo.
Se quiser ter um fim-de-semana romântico, na companhia de um/a genuíno/a espécime latino, há toda uma panóplia de bares e discotecas preparados para o efeito, onde funcionários treinados na arte original do engate lusitano, sem quaisquer tipos de doenças venéreas, e devidamente esterilizados, farão todo o trabalho por si. Experimente o fogo da paixão latina!
De que está à espera? Reserve já o seu lugar na 7 Hills Sunny City, a cidade recuperada do futuro!”

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Os Novos Amigos do Conde Drácula

O Conde Drácula sentia-se sozinho e aborrecido, no seu velho e desconfortável Castelo, na Transilvânia.
Nenhum dos poucos vizinhos que restavam vivos se atrevia a convidar o Conde para entrar em sua casa. Por isso, Drácula passava todo o tempo a reler os velhos livros da sua biblioteca, ou a rever, pela milésima vez, as cópias muito estragadas que tinha dos filmes clássicos de terror dos anos 30.


Drácula começou a entrar em depressão. Acordava muito tarde, nunca antes da uma da manhã, e aproveitava muito mal as suas noites. Teve de tapar todas as janelas do seu Castelo, pois ficava desperto até altas horas do dia.
Tinha pouco apetite, e alimentava-se mal, muitas vezes de sangue de animais de aviário, o que contribuía para aumentar o seu aspecto macilento.
Deixou de se transformar em morcego, para dar os seus velhos voos pelas redondezas, uma prática ancestral, e que o divertira tanto, durante séculos, mas que agora lhe provocava, somente, um intenso tédio.

A existência do Conde Drácula poderia ter ficado, irremediavelmente, em perigo, se não fosse a ajuda providencial do seu velho amigo Yeti, também conhecido como Abominável Homem das Neves.
Yeti sofria dos mesmos problemas de solidão, pois encontrava-se enclausurado na sua caverna no alto das montanhas dos Himalaias. Contudo, arranjou uma solução eficaz para combater os seus problemas, que descobriu, por acaso, enquanto navegava, um dia, pela internet, no seu computador portátil, com sistema wireless.
Yeti aderiu ao Facebook e, em poucas semanas, possuía já mais de 1000 amigos. Como tal, enviou um convite para o seu velho amigo Drácula.

Drácula, depois de acordar, mais uma vez, às duas horas da madrugada, abriu, ensonado, o seu email, e reparou no pedido de adesão do Yeti. Ao princípio, não percebeu logo do que se tratava, mas, na sua condição de vampiro deprimido e solitário, não podia dar-se ao luxo de recusar qualquer tipo de convite, e aceitou a amizade virtual do seu velho compincha.
Curioso, Drácula foi ver a página de Facebook do Yeti. Reparou que havia várias sugestões, e muitos amigos comuns, perdidos nos confins do tempo das suas memórias.

Em poucas horas, Drácula fez o pedido de amizade a centenas de utilizadores do Facebook, entre eles, centenas de desconhecidos, tais como jovens rapazes e raparigas do extremo oposto do globo, ou Livrarias e Associações Culturais de que desconhecia, por completo, a existência.
Assim passou toda a noite, até que se deitou, cansado e satisfeito, antes de o sol raiar.
Acordou logo depois de o sol se pôr, com uma animação e agitação que desconhecia desde há décadas, quando se aperaltava para entrar em casa das suas muitas vítimas, que o convidavam para jantar (velhos tempos!).
Abriu, receoso, o seu email, mas depressa foi invadido por uma intensa alegria, ao saber que os seus pedidos de amizade haviam sido aceites.

Foi ao Facebook, e aprimorou o seu perfil, colocou fotos dos seus melhores quadros, e apontou os seus livros, filmes e discos favoritos. Descobriu, com grande surpresa e alegria, que havia vários clubes de fãs do Conde Drácula, espalhados por todo o mundo.
Começou a contactar com os seus novos amigos, depressa ficou com os seus endereços de Messenger e Myspace, criou um blog e arranjou uma conta no Twitter.
Divertia-se a responder aos mais variados géneros de Quizzes, e criou outros, como: “qual é o teu tipo de sangue”, ou “em que parte do corpo é que gostarias de ser mordido por um vampiro?”.

Em breve, tinha amigos por todos os cantos do globo, desde o Pólo Norte, até à Terra do Fogo, passando por Prypiat, Varosha, ou pelas zonas mais remotas da Sibéria.
Todos o convidavam a passar umas temporadas nas suas casas. O Conde Drácula, quando lia os convites, sorria embevecido, mas adiava sempre a data da partida. Custava-lhe sair de casa, e deixar ao abandono toda a sua rede global de amigos. Além disso, tinha de actualizar o seu blog, fazer comentários nos blogs dos amigos, aceitar as centenas de pedidos de amizade que surgiam todos os dias, e ver os incontáveis vídeos que lhe enviavam. Não se podia ausentar por muito tempo.

Só saía durante breves minutos, todas as noites, para se transformar em morcego. Sobrevoava toda a sua região, sonhando com viagens a terras distantes e paraísos longínquos, antes de regressar ao Castelo, para ver, mais uma vez, o email. Bebia um batido de sangue e deitava-se no velho caixão de madeira, herança de família deixada pelos vampiros ancestrais. Enquanto adormecia, o Conde pensava em novos Quizzes: “em que tipo de caixão gostarias de descansar, caso fosses um vampiro morto-vivo?”…

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Pequeno Conto Didáctico Erótico-Jurídico

Amílcar gostava de andar de transportes públicos, principalmente nas horas de maior movimento, quando as carruagens estão apinhadas de gente, amontoada por todos os cantos e recantos do espaço disponível, tornando indisponível qualquer zona neutra de protecção inter-corporal.

Amílcar entrava nas carruagens, vestindo o seu sobretudo preto, que o tapava quase até aos pés, e fixava o olhar numa qualquer bela rapariga que estivesse próxima de si, escolhida ao acaso. Quando esta lhe retribuía o olhar, Amílcar abria, de repente, o seu sobretudo e deixava, então, à vista de todos e, principalmente da bela rapariga com quem trocava olhares, o seu corpo desnudado.

Amílcar sabia que estava a importunar outras pessoas, praticando actos de carácter exibicionista, e que a sua conduta era punível com pena de prisão até 1 ano, ou com pena de multa até 120 dias. Até porque Amílcar patenteava impudicamente aos olhos estranhos os seus órgãos genitais.
Amílcar não era, segundo as palavras do jurista Asdrúbal de Aguiar, um exibicionista patológico, ou seja, aquele indivíduo doente por motivo de moléstias várias (paralisia geral, idiotia, imbecilidade, demência senil, sonambulismo, etc), nem um frotteur (indivíduo que não exibe os órgãos sexuais, mas antes se deleita em “chegar-se às mulheres encostando-lhes as partes genitais ocultas pelo vestuário às nádegas ou às coxas”). Estes indivíduos são, regra geral, totalmente irresponsáveis, ou, pelo menos, quase totalmente, por serem vítimas dos impulsos irresistíveis da doença.

Amílcar era, pelo contrário, um depravado, ou seja, um indivíduo que executa o acto tão-somente por depravação ou deboche, não havendo, portanto, qualquer doença que o justificasse. Procedia assim porque sentia prazer em vexar as pessoas, porque se deliciava a vê-las ruborizarem-se, sendo mulheres ou raparigas honestas, ou apressarem o passo fugindo da sua presença. No seu caso, a responsabilidade criminal era incontestável.

Na grande maioria dos casos, as pessoas afastavam-se, com asco, e saíam, a correr, na estação seguinte, o que ajudava a explicar o facto de Amílcar nunca ter sido condenado, uma vez que, em regra, nestes casos, o procedimento criminal depende de queixa.
Amílcar não teria quaisquer hipóteses, pois o crime consuma-se com a simples prática, perante alguém, de actos de carácter exibicionista que o possam molestar, obrigando-o a presenciar cenas que os seus sentimentos pessoais relativamente a tais matérias repugnam.

Ora, naquele belo final de tarde de Verão, Amílcar entrou, como sempre, na carruagem do metro, apinhada de gente, vinda do trabalho. Fixou o seu olhar numa jovem mulher, de cerca de 25 anos, morena, e de estatura média, que lhe retribuiu o olhar, sorrindo.
Cerca de 5 minutos depois de ter entrado, e entre duas estações, Amílcar abriu o seu sobretudo, com um certo alívio, uma vez que estava muito calor, expondo a todos os presentes, o seu “membro viril”.
Como sempre, as hostes agitaram-se, os olhares ruborizaram-se, uma ou outra mulher fingiu desmaiar, e alguns homens retribuíram-lhe um olhar hostil. Mas ninguém disse nada, e todos saíram, em passo apressado, na estação seguinte. Todos menos a miúda de cerca de 25 anos, com quem Amílcar trocara vários olhares, e que agora se ria.
Este, ao ver a sua reacção, ficou, por uns instantes, atónito. Depois, sorriu-lhe. Instintivamente, e com uma inexplicável vergonha, voltou a tapar o sobretudo, o que provocou alguns risos à rapariga. Começaram a conversar, apresentaram-se, ela chamava-se Bárbara, saíram do metro, e foram tomar um café.

Bárbara convidou Amílcar a ir a sua casa, entraram, e começaram a beijar-se, muito pacificamente, sem qualquer tipo de coacção sexual (sem usarem a violência, ameaça grave, ou qualquer tipo de constrangimento para a prática de actos sexuais de relevo).
E praticaram, de facto, actos sexuais de relevo, ou seja, segundo Figueiredo Dias, “todos aqueles actos que, de um ponto de vista predominantemente objectivo assumem uma natureza, um conteúdo ou um significado directamente relacionados com a esfera da sexualidade e, por aqui, com a liberdade de determinação sexual de quem o sofre ou o pratica”.

Os actos que praticaram naquela noite invadiam, de uma maneira objectivamente significativa, aquilo que constitui a reserva pessoal, o património íntimo que, do domínio da sexualidade, é apanágio de todo o ser humano.
Praticaram todo o tipo de actos sexuais que relevam, nas palavras de Manuel Leal-Henriques (Juiz Conselheiro no Supremo Tribunal de Justiça): tudo começou com a desnudação de Amílcar e Bárbara; depois, passou-se para os beijos procurados nas zonas erógenas do corpo, como os seios, a púbis, o sexo, etc, seguindo-se os actos de masturbação mútua.
Em seguida, passaram para o coito oral (introdução do pénis de Amílcar na boca de Bárbara), cópula (ligação dos órgãos sexuais do homem com os da mulher, por meio da introdução do pénis na vagina, ainda que de forma parcial, ou seja, com a simples intromissão entre os grandes e os pequenos lábios).

Houve uma óbvia consumação da cópula, até porque nas palavras de Rodriguez Devesa, para a consumação da cópula “basta a coniunctio membrorum, não sendo necessário nem a inmissio seminis, nem que a inmissio penis seja completa (Derecho Penal Español, Madrid, 1980, 8ª Edição, Parte Especial, 169 e 170).
Passaram, em seguida, para o coito anal (introdução do pénis de Amílcar no ânus de Bárbara), e troca consentida de ofensas à integridade física simples (para efeito de consentimento, a integridade física considera-se livremente disponível).

Quando tudo terminou, Bárbara pediu a Amílcar que saísse, pois ainda tinha de trabalhar.
Eram 4 da manhã, e Amílcar dirigiu-se à sua casa, que partilhava com Carlos e com a mulher deste, Daniela.
Entrou, e bateu à porta de Carlos, pois queria contar-lhe as peripécias ocorridas nesse dia. Ouviu, de dentro do quarto, uma voz ensonada, que perguntou:
- Carlos, és tu? Pensava que vinhas mais tarde.
Amílcar, já recuperado da noite de sexo com Bárbara, resolveu aproveitar a oportunidade, e fazendo-se passar por Carlos, respondeu:
- Sim, querida, sou eu.
Como estava escuro, Daniela não reparou em nada, e, durante uma hora, praticaram uma série de actos sexuais de relevo, tendo Amílcar praticado o crime de fraude sexual, pois aproveitou-se fraudulentamente de erro sobre a sua identidade pessoal.
Houve fraude, uma vez que existiu uma maliciosa provocação ou aproveitamento do erro ou engano de outrem, para consecução de um fim ilícito.

Epílogo desta história:
Amílcar ainda procurou, de novo, Bárbara, mas depressa desistiu dos seus intentos. Bárbara vivia com Ernesto, que praticava a actividade de lenocínio, pois, profissionalmente, e com intenção lucrativa, fomentava o exercício por outra pessoa de prostituição ou a prática de actos sexuais de relevo.
Amílcar ainda pensou em abordar Bárbara, em plena rua, e chamar-lhe “Puta”.
Mas desistiu dos seus intentos. Afinal, praticara actos sexuais de relevo sem pagar, e não tinha grandes formas de provar que ela se dedicava a essa profissão.
Ainda corria o risco de o Tribunal considerar que estava a imputar factos a outra pessoa, mesmo sob a forma de suspeita, ou a dirigir-lhe palavras, ofensivas da sua honra ou consideração, e de estar, dessa forma, a cometer um crime de injúria, punível com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 120 dias.


Terça-feira, Junho 09, 2009

3 inches wanna see you

alguns day brakes depois levantou-se de garfo na mão
e disse: olha, se quiseres visto os olhos como antes de ter rícinos;
como tinha sido génio e even antes historiador lacei o bom corpo ao terno e falei
com balas na língua: isso eu sei, mas vamos dar uma volta de carro?
- assim, como se traz o senhor, em calda, na palma da mão -
faz xarope e o calor demarcha para so lucky so strike
que me sai um fumar tão grande como o amor que dói, na qualidade
de uma maçã fresca, depois de foder;
era o dia b e tivemos Buenos Aires e Bucareste acesos
como os vincos do chapéu que trazes do lado de fora da estrada
eu chamava-te deixa ficar o chão pelo menos e tu dizias
b, os pés e a cama estão lost and found e o significado da palavra em mim é um
why can’t I have more than one horse?


(poema escrito pela nossa querida e excelentíssima amiga, Guelra Maria de Bourbon)

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Um desafio para todas as mentes Artísticas e Criativas deste Mundo

Muitas pessoas afirmavam, ingenuamente, que a sua vida dava um filme. Esqueciam-se, contudo, de que não existe nenhuma alma interessada em assistir a 90 minutos desse espectáculo, por muito trabalho de Edição que pudesse haver, nem haveria um Produtor que quisesse investir num produto tão inócuo e fastidioso. As pessoas que afirmavam, ingenuamente, que a sua vida dava um filme, lembraram-se dos 15 minutos de fama do Andy Warhol, e passaram, então, a dizer, que a sua vida dava uma Curta-Metragem. Esqueciam-se, todavia, que Andy Warhol proferiu essa afirmação há muitos anos, e que os 15 minutos de fama são, obviamente, exagerados. Para além disso, para que servem as Curtas-Metragens? Para passarem no Onda Curta, e serem vistas por 200 pessoas?
Pensando neste problema, resolvemos criar o seguinte concurso: “A minha vida dava um Trailer”.
Os interessados, que podem ser de todas as idades, e de ambos os sexos, deverão enviar, para a nossa redacção, até ao próximo dia 15 de Julho, um filme, com a duração máxima de noventa segundos, gravado num qualquer meio à sua escolha (pode ser por telemóvel, por exemplo), onde, através de uma voz off, narrem, em poucos segundos, os acontecimentos mais interessantes da sua vida (um dia de trabalho que corra particularmente bem, uma viagem de que gostaram particularmente, uma cena de sexo com o(s) seu(s) parceiros, um drama familiar, uma saída à noite, uma conversa interessante, etc). O trailer deve ser acompanhado de uma banda sonora. De preferência, e se conseguirem arranjar alguma personalidade pública que possa aparecer num dia da vossa vida, coloquem-no, nem que seja para fazer uma cameo appearance. O público gosta sempre de ver caras conhecidas.
Serão seleccionados os 60 melhores trabalhos. Esses trailers farão parte do filme “Os Nossos Trailers Davam Uma Vida”, que será comercializado, posteriormente, em DVD.
Tal como acontece com os leitores de MP3, que nos pouparam da tarefa inútil de termos de ouvir o álbum de um artista, na sua totalidade, este filme permite-nos apreender e condensar os aspectos a reter da vida da pessoa, em 90 segundos. Sabemos que um minuto e meio é excessivo, e que 30 segundos bastariam, mas para isso é que servem os desafios. Cada DVD comercializado terá os trailers dispostos por uma ordem diferente, para dar a ideia de Shuffle.
O DVD não terá opções especiais. Apenas um trailer do filme, que terá a duração de um minuto e meio, e que narrará, em poucos segundos, os acontecimentos mais importantes do filme, que é, como dissemos atrás, composto pelos 60 trailers seleccionados.
Artistas de todo o mundo, AKA, toda a população do Planeta Terra, concorram, sejam criativos, e mostrem que a vossa vida vale a pena!

Quinta-feira, Maio 21, 2009

A Vida dos Outros

Caro Amigo:
Hoje acordei cedo, por volta das 7.30 da manhã. Tomei um banho revigorante, a água estava à temperatura ideal, usei um champô muito bom, feito à base de camomila, e ervas aromáticas vindas, directamente, da ilha de Zanzibar. O gel de banho era anti-esfoliante, e parece que me faz bastante bem à pele. Depois, um magnífico pequeno-almoço, que consistiu numa sandes de fiambre, sumo de laranja, um café com leite e, ainda, umas bolachinhas com marmelada. Hoje não me apeteceu comer a minha mortadela de 2 kg, mas amanhã pretendo prová-la, pois tem um aspecto delicioso.
Depois, fui dar uma volta com o Manuel, o Luis e a Adozinda, que me vieram buscar num Seat, modelo Ibiza, do ano de 2006. Fomos a vários locais, desde a vila histórica de Casais Novos de Santo Agostinho, com as suas ruas típicas, e um Mosteiro Histórico, que fazem dela um local tão interessante para conhecer, até Vale de Calafredos, ilustre cidade fundada pelos Celtas, destacada pelo seu famoso aqueduto e a singular beleza da zona histórica. O passeio foi abrilhantado pelos comentários do Manuel, que tirou um curso de guia turístico, e é um entendido na matéria, e pelo sorriso e simpatia da Adozinda, que não parava de me fazer piropos, e me tirou muitas fotografias (em breve vou colocá-las no meu facebook).
Almoçámos num restaurante típico, e comemos uma Sopa à Lavrador, Pato à Zé Padeiro, com batata assada, e migas. Durante o almoço, uma empregada, com os seus 50 anos, piscou-me o olho, enquanto eu me dirigia aos lavabos. Entrámos juntos na casa de banho, e fez-me, durante 5 minutos, um agradável broche, vulgo sexo oral. Voltei para a mesa a tempo de comer um pudim flan.
Depois do almoço, subimos a montanha de Calafria (com a altura de 1800 metros), e andámos de teleférico, tendo tido a oportunidade de contemplar uma paisagem impressionante de alta montanha. Lanchámos no meio do monte, num parque de merendas. Por volta das 16 horas, juntaram-se a nós a Margarida, a Vanessa, o Pedro, o Gaspar e a Catarina. Jogámos cartas, cantámos, e ouvi um fantástico espectáculo de Sevilhanas, interpretado pelo Joca, e pela Mariza, que apareceram, entretanto. A Margarida conta estupendas anedotas, e o Pedro faz uns fantásticos resumos, em 30 minutos, de vários clássicos da literatura mundial. Eu também falei, da minha profissão, e todos me ouviram, com o máximo de interesse e atenção, durante cerca de 20 minutos.
Regressámos à última hora da tarde, a tempo de jantar ao pé do mar, num restaurante, onde comemos uma suculenta mariscada.
Depois, deram-me boleia, a mim, e à Vanessa, que ficou em minha casa. Eu e ela conversámos, durante 45 minutos, sobre os nossos problemas pessoais, depois, ela meteu um disco, muito giro, na aparelhagem, com marchas militares das ilhas Tonga, e beijámo-nos. O acto sexual durou cerca de uma hora, penetrei-a em 8 posições diferentes, ela deu-me algumas chicotadas e bateu-me com outros apetrechos, que estavam dentro da sua maleta. Depois do acto, abraçámo-nos, e fumei 2 cigarros, marca Marlboro. Por volta das duas da manhã, depois de termos falado um pouco mais da nossa vida pessoal, ela despediu-se de mim, com um french kiss, não sem antes termos tirado umas fotos juntos (brevemente vou colocá-las no facebook). Deixou-me, igualmente, em cima da mesa-de-cabeceira, uma cópia do CD das marchas militares.
Mas amanhã ouço-o. Agora tenho de ir dormir, que vou acordar às 7 e meia da manhã, pois vou fazer pesca submarina com o Valter e a Magda.
Tudo isto ficou-me apenas por 126 euros! Paguei um euro extra, pois os queijinhos que comi no restaurante não faziam parte do pack. Como vês, caro amigo, vale a pena, e ainda recebi, como compensação, uma metade de cordeiro de grande qualidade, de 4 kg, mais 5 magníficos litros de azeite, e um esplendoroso conjunto de 18 facas de cozinha. Eu mando-te o número da Agência de Viagens & Lazer, convém reservares com alguma antecedência, pois estamos a entrar na época alta, e há muita gente, nomeadamente casais, a fazer marcações.
Grande Abraço

Segunda-feira, Maio 18, 2009

Feira do Livro-Hipóteses de Um Final Feliz

A Polícia Judiciária já divulgou a foto do principal suspeito, e provável cabecilha, do bando que invadiu, esta tarde, a Feira do Livro, no dia do seu encerramento.
Recorde-se que o bando aproveitou a enorme confusão que se fazia sentir no Pavilhão da Leya, fruto da presença de António Lobo Antunes e Margarida Rebelo Pinto, para se infiltrar, sem se fazer notar.
O grupo, composto por cerca de dez elementos, surgiu vestido com máscaras de pétalas de papoila vermelhas (o famoso símbolo do Homem-Gargalhada), e munido de sacos vazios, começou a enchê-los com todo o tipo de livros que lhe apareciam pela frente.
O cabecilha do grupo, que tinha um sotaque do nordeste brasileiro, não parava de gritar: "onde é que estão os livros do Robert Walser?", talvez sem saber que é a Relógio D'Água que edita o autor de Jakob Von Gunten. Acabou por levar a colecção completa do Roberto Bolaño.
A Polícia Judiciciária divulga, agora, a foto do principal suspeito. Dizem que o grupo também tem ramificações na Sibéria Oriental.
Se souberem do seu paradeiro, contactem-nos. A Direcção do Ângulo queria condecorar esse bravo homem.



Quinta-feira, Maio 14, 2009

Curriculum Actualizado

Elementos Pessoais
Nome: Zeferino José da Silva Dias
Data de Nascimento: 12 de Outubro de 1962
Local de nascimento: Queluz-Massamá
Residência: Rua da Esperança, Bairro da Anunciação, 1900 – 543

Habilitações Académicas
. Licenciatura em Engenharia de Sistemas Ecto-Endocrino-Plásmicos pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Santa Martinha, concluída em Junho de 1987 com média de 14 valores;
. Especialização em Pregos e Parafusos de 12 cm, variante de aplicação em Brocas para Furar Metais
. Curso de linguagens informáticas, nomeadamente, Excel, Access e Frontpage, no Verão de 1995.

Experiência Profissional
. Participação na implementação de um sistema informático para a maior empresa prestadora de serviços na Região de “Las Hurdes”;
. Obtenção de uma distinção por ter desenvolvido o sistema de processamento de respostas imediatas a pedidos de clientes anónimos
. Trabalho de Engenharia na Sociedade XPTOY, SA, em Angola, entre 1996 e 2000
. Técnico de Sistemas de Verificação da Qualidade de Parafusos, numa empresa sediada em Vila Real das Nespereiras.

Outras Actividades e Interesses
. Fluência em Inglês, Francês e Italiano. Participação na organização das festas da cidade de Freixos de Freamunde-Sul, nos anos de 1996 a 2004.
. Frequência assídua de eventos culturais, como cinema, teatro, exposições e concertos;
. Prática regular de atletismo e ginástica acrobática
. Participação em programas de apoio à juventude patrocinados pelas Câmaras Municipais de Sesmarias do Bom Jesus;
. Grau 6 no Curso de Sânscrito Jurídico, vertente Recuperação de Empresas.

Situação Actual
. Encontra-se falecido desde Janeiro de 2006


Sábado, Maio 09, 2009

Conselhos Para Roubar na Leya- 1


Já começou a Feira do Livro de Lisboa, de 2009, e este post serve para motivar todos os nossos leitores para fazerem o que de mais interessante há por lá: Roubar na Leya. A Leya é, como todos sabem, aquele bunker de Editoras, que se fixa num espaço próprio, com uma pracinha central, que passa sempre música de Daniela Mercury aos altos berros, e onde há grandes filas para a grande animação do certame: arranjar um exemplar assinado de um livro do António Lobo Antunes.
A Leya introduziu também uma coisa essencial em qualquer Feira do Livro que se preze: detectores de livros à entrada e saída do bunker, para prevenir a existência daqueles terríveis terroristas que levam, à sucapa, um livro debaixo do bolso.
Isto leva-me ao tema do post: a criação de vários planos para roubar livros na Leya. Aqui fica o primeiro:
Plano nº1 para roubar livros na Leya
Material necessário:
. uma pessoa e um cúmplice
. Saco com livros comprados noutra Editora
Explicação do plano:
Um dos ladrões entra por um dos detectores assinalado com o nº1, na figura. Depois, dirige-se a um dos pavilhões (pode ser, por exemplo, o da D. Quixote, assinalado com o nº2, na figura), e pega num dos livros. Depois, se o António Lobo Antunes estiver presente, o ladrão coloca-se na fila, assinalada com o nº3, para receber um autógrafo. Enquanto está na fila, coloca, à socapa, o seu livro dentro do saco do livro comprado noutra Editora. Depois, fazendo um ar de enfado, com a longa espera, finge desistir, e sai da fila. Há que ter cuidado com as pessoas assinaladas com o nº4, que são, provavelmente, agentes da Leya, à paisana.
A certa altura, o cúmplice do ladrão, grita-lhe, a partir do arvoredo, escondido atrás do nº5 assinalado na figura. O cúmplice estacionou, previamente, o seu carro, junto do Pavilhão Carlos Lopes, que fica a escassas dezenas de metros dos Pavilhões da Leya. Depois, ficou no arvoredo, entre dois dos pavilhões da Leya (a saída lateral não possui detectores) a fingir que ia entrar para a Feira. Ao avistar o ladrão, grita-lhe, e finge que é um velho amigo. Podem trocar o seguinte diálogo:
- Manel! Oh Manel, és tu??
O "Manel", que estava no bunker da Leya, acerca-se do cúmplice, e vai cumprimentá-lo, no intervalo entre dois pavilhões.
Trocam palavras, e, discretamente, começam a afastar-se, em direcção ao carro do cúmplice, com um livro roubado dentro do saco de outra editora, e evitando os detectores de livros roubados.
Podem ir tomar um café, entretanto, à esplanada que fica próxima, aquela que tem um lago com cisnes, e uns bons batidos de frutas exóticas.
Boa leitura!

Segunda-feira, Maio 04, 2009

O Meu Biopic Dava Uma Vida

Começam a circular, com alguma insistência, novos rumores acerca do biopic sobre John E.T. Smith, falecido, como se sabe, no passado mês de Janeiro. Na página do actor, no imdb ( internet movie database), aparece já, como estando na fase da pré-produção, o filme sobre a sua vida, com o título provisório “An Alien in movie pictures- the John E.T. Smith saga”. Parece-me que este título é, por um lado, uma chalaça um pouco forçada com base no seu apelido (E.T.) e, por outro, uma referência à sua própria vida.
Isto porque E.T. Smith apareceu, um pouco por acaso, no mundo do cinema. Durante as filmagens de “Raging Bully”, o duplo do actor principal, Anthoney Honeymann, de seu nome Edward Black Diamond Jack, apanhou uma insolação, e teve de ficar em repouso durante alguns dias.
Como as filmagens não podiam ser adiadas, procurou-se, de imediato, um duplo para o duplo de Honeymann. Por sorte, o empregado de mesa do restaurante “The Laughing Pig”, próximo do local das filmagens, que se realizavam numa pequena localidade do Arkansas, era, nem mais nem menos, John E.T. Smith, que apresentava muitas semelhanças físicas com Edward Black Diamond Jack.
Durante alguns dias, E.T. Smith estreou-se na difícil arte de “Stuntman”, mimetizando, na perfeição, o duplo Black Diamond Jack.
O seu trabalho foi tão perfeito que, anos depois, quando se realizou o biopic sobre Edward Black Diamond Jack, “Jack of All Aces”, E.T. foi escolhido para dar vida ao personagem principal.
O seu desempenho valeu-lhe vários prémios, em festivais um pouco por todo o mundo, e a nomeação para os Óscares desse ano, tendo ganho o prémio de Melhor Actor Principal.
Curiosamente, o próprio Edward Black Diamond Jack, havia ganho o mesmo prémio, cinco anos antes, pela sua brilhante performance no biopic sobre Anthoney Honeymann, “A Sweet Guy in a Tough World”.
Recorde-se que Anthoney Honeymann teve tudo menos uma vida fácil. Órfão de pai e mãe desde os 3 anos, viveu em orfanatos, até aos 11 anos. Violado continuamente pelos seus educadores, fugiu do orfanato, e foi viver para Nova Iorque, onde levou uma vida de vagabundagem, até ter sido descoberto, por acaso, por Stella Adler, do Actor’s Studio.
Stella Adler comoveu-se com o modo como Honeymann pedia esmola na rua, e lembrou-se de lhe fazer uma audição, pois precisava de um personagem para o biopic sobre Billy B. Wilde, o famoso actor que, por não ter conseguido lidar com a fama e pressão social, enveredou pela via da droga e do crime, acabando por morrer atropelado, quando vivia na rua, como vagabundo, há vários anos.
Honeymann cumpriu na perfeição o seu papel, e tornou-se um actor respeitado durante os 30 anos seguintes.
O seu fim foi, dessa forma, bastante diferente do de Billy B. Wilde que, recorde-se, ficou famoso por desempenhar o papel de James T.Bone Palmer, no biopic dedicado a esse actor dos primórdios do cinema mudo, que se tinha tornado famoso ao desempenhar o papel de Angus Macmuffin, no biopic sobre esse empregado de restaurante, tornado actor por acaso, ao ser descoberto pelos produtores de uma peça, que procuravam uma pessoa com traços físicos semelhantes a Gordon Fitzgerald McCarrick, o malogrado actor, que faleceu com uma insolação, enquanto fazia uma digressão pelo país, numa peça onde desempenhava o papel de John “Many Faces” Bishop, actor vitoriano famoso por desempenhar os papeis de vários personagens históricos.

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Stroszek e a Galinha Dançarina, o Coelho Bombeiro, etc

Terça-feira, Abril 28, 2009

Resolução Saxofónica do Dia


Sexta-feira, Abril 24, 2009

Os Novos Cantores de Intervenção

Ouvem-se, todos os dias, relatos e queixas por parte da Sociedade Civil, em geral, acerca das Gerações mais novas. Tal como a Geração da PGA foi apelidada de “rasca” pelo jornalista “genial” Vicente Jorge Silva, a Gera Rebelde e bué marada nascida em finais dos anos 80 e inícios dos loucos anos 90, é apelidada de “egoísta” e “acéfala”. Diz-se, também, que não possui o mais pequeno vestígio de uma consciência político-social.
Como para contrariar estas impressões, recebemos, recentemente, na nossa Redacção, uma maquete de um novo grupo português, de seu nome “OS ANARCO-PRATICANTES”. No seu texto de apresentação, dizem-se dispostos a cantar o seu grito de revolta e a mudar a situação vigente. A maquete chama-se “UM COCKTAIL E UM MOLOTOV NA REFEIÇÃO DA REVOLUÇÃO” .O tema de apresentação, “Grito da Revolução”, já pode ser ouvido no myspace da banda, e no youtube.
Para celebrarmos o dia da Revolução, apresentamos, já de véspera, e de antemão, o sucesso radiofónico desta Primavera:

Depois de Março, e das suas águas
Chegou Abril, com mil mágoas.
Mas do pranto da Ditadura,
Surgiu, com candura, e sedução
O Canto da Revolução.


Depois, metemos o PREC no caixão,
Prendemos o cravo
Com uma fechadura,
E de toda a ruptura
Apenas ficou um leve travo.

Agora, temos de resolver este dilema:
Se quisermos entrar em acção,
E na Revolução meter o pé,
Temos de ir ao cinema
E comprar o bilhete p’ró filme do Che.

A vida está torta,
Mas não dá para sair dos cafés,
E andar p’rai aos pontapés,
Ou a chamar as pessoas p’rá rua,
Dizer que a luta continua,
Nem dá p’ra bater de porta em porta
Pois a nossa mão, está morta.

Refrão:
Dêem-nos novas filosofias, ideologias,
Pensamentos brutais,
Para fazer graffitis nos murais,
Uma epifania, revelação,
Mensagem de apresentação
Alguma coisa bué zen
Para meter no meu msn!!!

Temos bué pena
Desta cena!
Tu não sabes, ou não vês!
Ou então, és um tecla 3!

(solo de guitarra)

Vamos é fazer uma canção!
Umas quantas estrofes
Um refrão
Eu toco à guitarra
E vocês, fazem uma desgarrada

Daremos um tiro certeiro
Nestas águas paradas
Eu serei o Companheiro!
Vocês os camaradas!

Cantaremos com vozes animadas!
Para acordarmos este pardieiro!
Eu darei um si-bemol
E vocês responderão com um LOL!!

Quinta-feira, Abril 23, 2009

Na Pandra Bomba Ainda Jinga a Hidra Samba- 5ª, e Última Parte

Publico agora a 5ª (e última) parte do texto co-escrito com o camarada Boécio. Salientamos, obviamente, que se trata de uma interpretação particular e pessoal dos textos dos Mler Ife Dada. Não falámos com Nuno Rebelo ou com Anabela Duarte.

.....Cremos que o desdobramento da enunciação levado a cabo durante o gesto semiótico permite que o tipo de assimilação a que corresponde o segundo gesto não se materialize numa simples tradução mimética, mas sim numa multiplicação dos regimes de signos que povoam a matriz ou o meio de expressão, através de uma operatividade real de signos-partículas heterogéneos. Ambos os gestos convergem num terceiro gesto (há que fazer notar que estas distinções que propomos não equivalem a uma sequência temporal de gestos, que são evidentemente simultâneos, mas apenas a uma distinção analítica), gesto este que corresponderá à produção de um tipo singular de enunciação que não é uma mera mescla ou bric-à-brac, mas sim uma reinvenção operativa do meio de expressão, e que dá origem a uma língua nova. Assim, os jogos fonéticos de “Zuvi Zeva Novi” misturam-se com as palavras em português («ele aí cai, zuvi vai ver»), ou mesmo com algumas expressões em inglês («Taste a mar, hortelã gel»), segundo uma organização interna dos regimes de signos, de tal forma que o efeito produzido não causa estranheza, mas forma uma língua comum. Esta língua comum é fabricada por uma máquina discursiva com o nome próprio “Mler Ife Dada”, que é já em si uma enunciação nessa mesma língua. E é esta língua que opera livremente segundo um regime de signos heterogéneos (melódicos, rítmicos, sintácticos, etc.), e não meramente como uma mistura de padrões linguísticos autónomos entre si, mesmo nas letras aparentemente mais convencionais da banda, que se tornam assim irredutíveis tanto a uma interpretação semântica fechada, como a uma redução a constantes de significação. O que se ouve em “Sinto em mim” ou em “Choro do Vento e das Nuvens” são as diferenças intensivas de velocidade das analepses (como a imagem comum do vento a sussurrar), que põem em fuga o significado do texto; no último verso de “Erro de cálculo” («Subo devagar/ Se te queres matar mata-te/ Eu sou invisível/ Depressa/ Eu sou invisível/ Ou devagar»), o funcionamento autónomo de cada uma das partes («Subo devagar/ eu sou invisível» e «Se te queres matar mata-te/ depressa/ ou devagar»), não pretende corrigir o “erro de cálculo” ao reunir os enunciados anteriores (os versos em que a narradora diz, em português, que anda no ar e os versos, em inglês, em que fala do seu amor distante), mas sublinhar a operatividade comum dos elementos heterogéneos que trabalham o texto.
É através deste gesto de enunciação que põe as partículas-signo heterogéneas a modelar o texto, ao invés das elementos nucleares, que é possível a desconstrução dos significantes comuns e a consequente libertação da dívida que estes impõem. Em “Alfama” ou “À Chuva”, por exemplo, a enunciação do cliché faz-se através do cruzamento de diferentes regimes de signos que perturbam o seu reconhecimento e reinventam, assim, o próprio enunciado. Não é na sua função de constantes que as aliterações de “Alfama” («Alfama de cacos pintados de tintas e trocas e ventos no rio de pontos picantes e pontas de faca com laca e alpaca de Alfama com alma de alfafa e gente de fama que cai na galhofa do pátio da esquina da Feira da Ladra de cacos picantes e contas correntes de tretas e pintas de gente com laca nas pontas da fama e ventos de faca que cortam Alfama em portas pintadas com a fama do fado») ou que os efeitos das expressões performativas que compõem “À Chuva” (passou, olhou, sorriu, subiu, segui, fugi) abrem linhas de fuga na produção linear de sentido, mas sim na sua função operativa, que é imanente à pragmática discursiva da máquina de escrever “Mler Ife Dada”, esta definindo-se apenas pelos regimes de signos que põe a funcionar em variação contínua, regimes de signos estes que, tal como fazem notar Deleuze e Guattari, «se definem assim pelas variações interiores à própria enunciação, mas permanecem exteriores às constantes da linguagem e irredutíveis às categorias linguísticas»
[1].
É esta libertação das constates linguísticas ou do meio de expressão ou do seu significante transcendental que é, a nosso ver, a revolução particular dos Mler Ife Dada, na medida em que opera uma transformação real e imanente na linguagem do Pop-Rock português, segundo uma enunciação específica, mas reconhecível, que se singulariza em relação à enunciação geral ou a uma mera tradução directa desta
[2]. E é este fenómeno que Nuno Camarinhas identifica no que ele chama “Pop experimental” portuguesa, e que define como «a procura de criar música de uma forma nova, marcadamente europeia, senão mediterrânica, explorando universos tão distintos como o das músicas do mundo, ambientes de cabaret e cinematográficos, uma certa portugalidade pós-‑moderna, ambientes de quase-esquizofrenia, propostas dançantes directamente direccionadas ao cérebro, exploração e manipulação de sons em estúdio»[3].
Subtracção e redução (ao absurdo) dos significantes comuns, incorporação de elementos heterogéneos e produção de variantes contínuas são os três gestos ou operações sobre o meio ou a matriz de expressão que identificamos na nova vaga portuguesa de meados dos anos 80 e, mais particularmente, nos Mler Ife Dada. Estes três gestos fundam um tipo de enunciação local, colectivamente operante e reconhecível, que pode funcionar como um dialecto dentro da língua maior e universalizada do Pop-Rock, uma espécie de “linguajar” específico da cultura popular portuguesa. A pragmática deste tipo de enunciação que, uma vez mais, não é subjectiva mas colectiva na heterogeneidade dos signos que põe a operar, produz as tais coisas que fascinam porque o seu sentido é irredutível às constantes que dela se podem extrair («alors ça me fascine parce que je ne/ sais pas grand chose»). Sem dúvida que na pandra bomba ainda jinga a hidra samba.


Fim

[1] «Les régimes de signes se définissent ainsi par des variables intérieures à l’énonciation même, mais qui restent extérieures aux constantes de la langue et irréductibles aux catégories linguistiques», Deleuze, G., Guattari, F., Mille Plateaux, p. 175.
[2] Esta distinção poderá talvez corresponder à distinção que Deleuze e Guattari propõem entre um tratamento maior e um tratamento menor da linguagem, o primeiro operando por extracção de constantes e o segundo por variação contínua: «Le mode major et le mode mineur sont deux traitements de la langue, l’un consistant à en extraire des constantes, l’autre à la mettre en variation continue», Deleuze, G., Guattari, F., Mille Plateaux, p. 135.
[3] Camarinhas, Nuno, Rádio Pirata, 30 de Janeiro de 1999, http://anos80.no.sapo.pt/art001.htm.

Quarta-feira, Abril 22, 2009

Na pandra bomba ainda jinga a hidra samba- 4ª Parte

Publica-se agora a 4ª parte. Fica a faltar o 5º, e último trecho do texto.


.....Para compreendermos esta nossa hipótese, há que tentar destrinçar em que consiste o “meio de expressão” ou a “matriz linguística” para uma banda Pop-Rock portuguesa de meados dos anos 80. O “meio de expressão” ou a “matriz linguística” de uma tal tipologia não podem ser encaradas como uma gramática homogénea prestes a servir um determinado enunciado. Pelo contrário, o “meio de expressão” em que se desenvolveu o Rock português de meados dos anos 80 é necessariamente atravessado por diferentes “regimes de signos”, noção que tomamos de empréstimo de Deleuze e Guattari, e que estes autores definem, em Mille Plateaux, como toda e qualquer «formalização específica da expressão»[1]. Não pretendemos seguir aqui a argumentação desenvolvida por Deleuze e Guattari, mas tão só aproveitar a operatividade desta noção, que sugere a anterioridade das funções de enunciação em relação às constantes que constituem a cadeia significante de um determinado meio. Contudo, a extracção dessas constantes, ou significantes comuns, pode constituir um primeiro momento possível de uma pragmática dos regimes de signos que atravessam um determinado meio de expressão. Chamemos a este primeiro momento o “momento semiótico”, consistindo este na redução da expressão a uma sintaxe de significantes comuns identificados pela própria enunciação. Assim, diríamos que musicalmente este momento corresponde à adopção da estrutura convencional da canção Pop-Rock (com um determinado tempo e uma determinada organização interna, com um uso de determinados instrumentos, etc.), ao passo que liricamente pressupõe a adopção de uma determinada métrica (ou forma de expressão) que, por sua vez, serve uma determinada semântica (ou forma de conteúdo), ambas inseparáveis do regime musical. No caso particular dos Mler Ife Dada, este momento não é puramente semiótico na medida em que nos parece que a operação de redução aos significantes comuns implica uma tomada de posição estratégica, que desdobra desde logo a enunciação: exemplos disto serão “Dance Music” (do álbum Espírito Invisível), uma espécie de paródia à adopção do inglês como língua de enunciação («Why do you have to hear/ This song in English language/ If you’re not English/ And this ain’t no English song»), visto ser a tradição Pop-Rock uma tradição originalmente anglo-saxónica; nas canções onde são usados mais do que um idioma, normalmente estruturados em rimas convencionais (“Zuvi Zeva Novi”, “Passerelle”, “Canção do Homem que Anda (Walkman Music)” ou “Erro de Cálculo”), que sublinham a arbitrariedade dos significantes e a tradutibilidade infinita da linguagem universalizada do Pop-Rock; ou ainda nos ready-mades (“Oito Doces”, “Festa da Cerveja”), que mais não são do que respostas ou negociações com a matriz herdada da tradição dos cantautores na sua eleição do sentido da mensagem como padrão do texto cantado. Este desdobramento da enunciação é bastante comum nesta vaga do Pop-Rock português, sendo exemplos disto o uso intencional de palavras de ordem absurdas por parte dos Ocaso Épico ou as letras baseadas em nomes comuns e nomes próprios dos Pop dell’Arte.
Haverá um segundo gesto de negociação com o meio de expressão por parte dos Mler Ife Dada, e que é também um denominador comum do Pop-Rock dito “experimental”, e que poderia ser catalogado com o nome dado pelos Pop dell’Arte ao seu primeiro álbum, Free Pop (1987). Este gesto consistiria na incorporação de elementos heterogéneos à matriz convencional, multiplicando os regimes de signos. Musicalmente, deu-se a tentativa de assimilação de músicas de diversas culturas ou de outras tipologias, tal como faz notar Vítor Rua: «no rock isto reflectia-se na abordagem a músicas não europeias (especialmente a africana e a indiana), citações de músicas contemporâneas ocidentais, ou ainda, recorrendo à música concreta e electrónica, influenciados por Pierre Henry, Schaffer, Stockausen, Cage»
[2]. Tal assimilação sugeriu igualmente a tentativa de incorporação da fonética própria de idiomas estranhos, ou como é declarado no texto que citámos do primeiro álbum, entre as coisas que fascinam estão «as línguas estrangeiras, tanto mais fascinantes quanto mais incomuns e indecifráveis»[3]. Exemplos disto são “Desastre de automóvel em varão de escadas” (que introduz a “língua” alemã «Was ist los?/ Darf ich fotografieren?/ Was ist passiert?/ Das ist ein Unfall mein Freund, ein Unfall!», juntamente com a utilização de algumas frases em português, num registo absolutamente non sense, «Muito bem, muito bem!/ O terreno também é escorregadio…/ Muito escorregadio»), a versão de uma canção popular arménia, «Loosin Yelav» no segundo álbum (a partir de arranjos de Luciano Berio), mas principalmente os temas em que as supostas línguas estrangeiras têm um tratamento puramente fonético, ou seja, em que são inventadas línguas incomuns e indecifráveis. Exemplos disto são “À sombra desta pirâmide”, um tema que teve origem numa captação de uma rádio árabe, cujo sample é repetido algumas vezes, durante a música, nos momentos das pausas instrumentais, para em seguida a banda cantar, em coro, uma ladainha pseudo-arábica, ininteligível, intercalada com os nomes de alguns pintores; mas também “Pandra-Bomba” (de onde tirámos o título da nossa comunicação), o tema “brasileiro” do primeiro álbum, cuja sonoridade “tropical” é complementada com o uso de algumas palavras que nos levam nesse caminho (“surucucu”, por exemplo), e onde as expressões fonéticas engendradas (“pandra”, por exemplo) se confundem com outras palavras retiradas do léxico português, usadas fora do seu sentido comum («E a pedra bomba rebenta num espanto; Na sala zomba o quadro do canto»), o que resulta numa mescla, onde se torna difícil, a certa altura, destrinçar as palavras “inventadas” das palavras “reais”, ambas produzidas em constantes aliterações; ou ainda “Siô Djuzé” (também do primeiro álbum), que parece ser uma retribuição que os Mler Ife Dada fizeram aos GNR, Anabela Duarte canta em dueto com Rui Reininho um breve tema claramente inspirado em melodias cabo-verdianas, e no qual o grupo aproveita para “traduzir” o nome da banda (que já tinha um significado meramente fonético), “adulterando-o” para cabo-verdiano: «Fala Cuma mudjeri/ Lá dos Meri Dada». Mesmo o tema anterior, “Valete de Copas”, sendo cantado totalmente em português, faz uso de uma estrutura pouco comum na linguagem Pop‑Rock, tanto através da figura de estilo do hipérbato («Deboche ouve-se aqui/ De beijos enches-me a mim»), como de novos jogos fonéticos, que se sobrepõem a um significado concreto que a letra possa ter («E leva assim meia hora/ Andei irei gente aura/ Lamento ai onde cai/ Da selva onde quero ir»). .....

(continua)




[1] «On appelle régime de signes toute formalisation d’expression spécifique […]», Deleuze, Gilles, Guattari, Félix, Mille Plateaux. Capitalisme et Schizophrénie 2, Minuit, 1980, p. 140.
[2] Rua, V., “Improvisos sobre o Rock em Portugal”, http://anos80.no.sapo.pt/art007.htm.
[3] Rebelo, N., Coisas que Fascinam, Polygram, 1987.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Na Pandra Bomba ainda Joga a Vida Bamba- 3ª Parte ( já estava farto de colocar sempre "Na Pandra Bomba Ainda Jinga a Hidra Samba)

Aqui fica a 3ª parte do texto. Esta é mais curta, pois antecede um longo trecho, que seria inconveniente cortar. Em breve, colocarei a 4ª parte.

....Feita de montagens de estilhaços de palavras, aliterações, onomatopeias, fonemas incompreensíveis e de escrita automática, a poética dos Mler Ife Dada faz jus ao nome da banda ao recuperar o non-sense e o ready-made dadaístas. A influência dos poemas sonoros de Hugo Ball ou Kurt Schwitters, os quais são constituídos unicamente por fonemas sem significado, são claras em temas como “Zuvi Zeva Novi” (onde o título da música é repetido várias vezes, até à exaustão, em constantes aliterações) ou em “À sombra desta pirâmide” e “Xwé Xwé” (nas quais a sintaxe tende a simular a fonética de idiomas indecifráveis que são sugeridos pela estrutura melódica, uma ladainha pseudo-arábica no primeiro caso e um dialecto africano, no segundo). O uso do ready‑made, por sua vez, pode ser encontrado em “Oito doces” (a letra não é mais do que a literal enunciação de oito doces: bolo de laranja, cassata, pudim de coco, pastel de nata, arroz doce, tarte gelada, doce de pêra e goiabada), em “Festa da Cerveja” (inicialmente concebido como jingle de 20 segundos para uma marca de cerveja alemã, que acabou por se recusar a ouvir o trabalho, levando Nuno Rebelo a cortar a fita multipistas com uma tesoura, de modo a deixar de fora o nome da marca e mantendo unicamente frases-chavão associadas ao produto, distribuídas por duas partes iguais, cada uma com uma mistura diferente: «Linda cerveja vem nesta bandeja/ Bela caneca que os meus lábios beija/ Espuma de oiro requinte plena sedução/ Festival da total satisfação/ Baviera, tradição») ou ainda em “Alfama” (que enuncia, em tom narrativo, os clichés associados à temática do fado). Estes exemplos mostram, sem dúvida, e à primeira vista o humor da banda, que assume assim a ligeireza associada à música popular e a função primordial que a acompanha, que é a de divertir: levar esta função até ao limite implica, no seu caso, esvaziar a lírica de conteúdo semântico e subjugá-la ao ambiente criado pela base musical. Contudo, esta postura não pode deixar indiferente o meio de expressão, fundando assim uma vertente que podemos denominar de “operativa” e que não deixa também de se inscrever num certo gesto dadaísta, sublinhado outrora por Hugo Ball («Para nós, a arte não é um fim em si mesmo [...] mas é uma oportunidade para a verdadeira percepção e crítica da época em que vivemos»[1]), mas também indirectamente por Tristan Tzara («DADA não é loucura, nem sabedoria, nem ironia, olha para mim, gentil burguês»[2]): se Ball encarava a arte como um meio de acção política, Tzara não podia deixar de reconhecer que as forças aparentemente niilistas que alimentavam as performances dadaístas eram simultaneamente disparos contra as instituições artísticas (mesmo as ditas “de vanguarda”) e linhas de fuga que apontavam novas direcções....

(continua)



[1] « For us, art is not an end in itself […] but it is an opportunity for the true perception and criticism of the times we live in», Ball, Hugo, Flight Out of Time: a Dada Diary, University of California Press, 5 June 1916.
[2] «DADA n’est pas folie, ni sagesse, ni ironie, regarde-moi, gentil bourgeois», Tzara, Tristan, “Manifeste de Monsieur Antipyrine”, Lampisteries précédées des Sept Manifestes Dada (1924), Jean‑Jacques Pauvert, p. 16.

Sexta-feira, Abril 17, 2009

As Aventuras do Incrível Romualdo Castelo- nº10- As Mensagens de Telemóvel Enguiçadas

Naquela tarde, Romualdo Castelo estava a trocar uma série de mensagens por telemóvel com Marta A., sua amiga de longa data.
Acabara de lhe mandar uma mensagem a confirmar o horário do filme que iam ambos ver, nessa noite, ao cinema, quando recebeu outra mensagem de Marta A., que rezava o seguinte:
- “Amo te. Ouves?”
Mais nada, nenhuma explicação, ou uma nota prévia que explicasse esse assomo amoroso.
Romualdo ficou uns momentos a matutar no que acabara de ler. Conhecia Marta A. há vários anos, e nunca tinha pensado nela como possível namorada. Apesar de tudo, Marta A. até era bastante engraçada.
Romualdo decidiu que seria de mau tom deixar de responder a tal mensagem, tal como achou de mau tom que uma mulher bonita e interessante como Marta A. pudesse não ser correspondida amorosamente. Como tal, respondeu-lhe, com a seguinte mensagem:
- “Eu também te amo, percebes?”
Acabara de lhe mandar essa mensagem, quando recebeu, quase simultaneamente, nova missiva de Marta A., que dizia apenas o seguinte:
-“ Desculpa, Romualdo, enganei-me no número! LOL! O cinema fica combinado para as 22.30, então! Abraço”
Romualdo ficou lívido, compreendendo que tinha metido o pé na poça. Recebeu de imediato, uma mensagem de Marta A.:
- “Amas-me, Romualdo? K conversa é essa? Eu tava a mndar a mensagem p o meu namorado.”
Romualdo ficou uns segundos a pensar. Até que mandou a seguinte resposta:
- “Pensava que a mensagem que tinhas mandado era dirigida a mim, e q tavas a dizer q me amavas, como amigo. Eu respondi que te amo, mas como amigo ou como se fôssemos irmãos. Além disso, tb tenho namorada!! LOOOOL!Bejos”.
Esta mensagem tinha um pequeno senão, para além de ser um pouco rebuscada. O senão consistia no facto de Romualdo não ter, naquele momento, namorada. Por isso, olhou para a sua lista telefónica, e viu o número a seguir ao de Marta A. Tratava-se de Marta D., que também conhecia há alguns anos, não tantos como Marta A., mas, mesmo assim, uma velha amiga, com quem Romualdo tivera, em tempos, um caso. Marta D. era engraçada, e simpatizava bastante com Romualdo, era uma boa altura para lhe pedir em namoro, e para salvar a face perante Marta A., pois, ao namorar com Marta D., Romualdo ficaria com um bom álibi para justificar a anterior resposta por telemóvel.
Com estes pensamentos em mente, Romualdo não tardou em mandar a seguinte mensagem para Marta D:
- “Amo te. Ouves?”
Passado uns minutos, Romualdo recebeu a seguinte mensagem de Marta D:
- “ k é isso,pah? Sabes k simptizo kntigo, mas agora tnho namorado. Tás-me a pô n1 situação difícil”.
Romualdo viu que tinha metido, de novo, o pé na poça. Marta D., além de não poder namorar consigo, naquele momento, sentir-se-ia, a partir de agora, constrangida com toda a situação.
Para piorar as coisas, subsistiam os problemas com Marta A., que mandava, agora, insistentes mensagens, a perguntar quem era a “felizarda” que namorava com Romualdo.
Por isso, tratou de pensar no plano C, e olhou, de novo, para a lista telefónica. Havia uma Marta M., antiga colega de trabalho, que sempre se tinha mostrado muito apaixonada por Romualdo. Contudo, este nunca lhe respondeu ao assédio, devido ao facto de Marta M., mau grado a simpatia, ser pouco atraente fisicamente. Para além disso, tinha uma gaguez aflitiva, que provocava risos descontrolados por parte de Romualdo, sempre que tinham alguma conversa.
Todavia, para salvar duas velhas amizades, Romualdo decidiu sacrificar-se, e dar o grande passo. Para tal, mandou, primeiro, para Marta D., a seguinte mensagem:
- “Oooops! Enganei-me! A mensagem era para outra Marta, a minha namorada! Lolada! Tá tudo bem? Bjx”
De seguida, mandou para Marta M. a já habitual mensagem:
- “Amo te. Ouves?”
Marta M., quando recebeu a mensagem, teve dois minutos e meio de felicidade intensa. Porém, e uma vez que sabia que Romualdo lhe devotava, somente, uma simpatia sarcástica, não tardou em compreender que a mensagem lhe fora, provavelmente, enviada por engano. Até que se lembrou da sua velha amiga, Marta R.
Uma vez, quando Marta M. passeava na rua com Marta R., viu Romualdo a passar, por acaso. Acabaram por tomar café todos juntos, e Marta M. reparou, com raiva, que Marta R. olhava embevecida para Romualdo.
Enfurecida, Marta M., chegou rapidamente à conclusão de que a mensagem se dirigia, provavelmente, para a sua velha amiga. Como tal, mandou a seguinte mensagem a Marta R:
- “Podes ficar com ele, sua porca! A partir de hoje, acabou a nossa amizade”.
Para Romualdo já não mandou mais nenhuma mensagem, pois ficou sem saldo. Romualdo ainda esperou um bocado, sem saber o que fazer, e farto de receber mensagens de Marta A. e Marta D., a perguntarem quem era a sua nova namorada, acabou por deixar o telemóvel em casa, e sair, para ver sozinho, a sessão das 22.30.
Nem se importou muito. Gostava de se sentar nas filas da frente, para ver melhor o ecrã, o que irritava as suas companhias de cinema, que se queixavam de ficar com dores no pescoço.

Quinta-feira, Abril 16, 2009

Na Pandra Bomba Ainda Jinga a Hidra Samba- 2ª Parte

Nesta segunda parte do texto, começamos a falar do caso concreto dos Mler Ife Dada e das "Coisas Que Fascinam" o seu Universo. Passaremos, em seguida, na 3ª Parte, a discutir, especificamente, as suas letras:

Falando do caso particular dos Mler Ife Dada, e dado que é a banda objecto do nosso estudo, será interessante centrarmo-nos um pouco nas suas raízes. O líder desta banda, e principal compositor e letrista, é o baixista Nuno Rebelo, oriundo de Cascais e antigo membro dos Street Kids, uma banda new-wave que, curiosamente, cantava de início em inglês, no momento da afirmação do Rock cantado em Português (as primeiras gravações dos Street Kids datam de 1980). Em 1982, os Street Kids resolveram optar pela língua de Camões, e começaram a escrever letras com maior intervencionismo social. Do seu único álbum, com o título Trauma, fazem parte músicas com títulos auto explicativos, como “Tropa Não”; “Propaganda”ou “Nunca Pensei que te anulasses tão bem”. O primeiro verso de “Propaganda” rezava, por exemplo, o seguinte: «Ontem fui ao Supermercado/ Ontem fui ao Super Popular/ Fiz Compras aos preços actuais/ Notei subidas nas tabelas gerais». O grupo acabaria pouco depois e Nuno Rebelo, após uma breve colaboração com os GNR (grupo com o qual se viria a cruzar várias vezes), formou os Mler Ife Dada, em 1984. Da formação inicial faziam parte (para além de Nuno Rebelo) Augusto França, Kim, e o vocalista Pedro D’Orey. Esta formação gravou, em 1985, o primeiro máxi-single da banda, que continha três temas: “Zimpó” (cantado num misto de várias línguas), e os temas em inglês “Stretch my Face” e “Spring Swing”. Pedro d’Orey abandonou a banda pouco depois, tendo sido substituído pela vocalista Anabela Duarte, que entrou a tempo de gravar o segundo single da banda, "L'amour va bien, merci", editado na Ama Romanta, Editora Independente, formada por João Peste, dos Pop Dell'arte.
A propósito desta canção, vale a pena recordar as palavras de Anabela Duarte acerca do processo de gravação: «Esse single é uma pérola. Uma mina de ouro, na melhor das hipóteses... Adorei cantar, adorei o estúdio de oito pistas, adorei a capa. Adorava os músicos e diverti-me imenso a ver pelo vidro do estúdio a cara de prazer e de gozo do João Peste, enquanto eu ia inventando o meu discurso em francês transcendental, falando na devida desproporção entre emoção e sexo e cães a ladrar e política liberal e de como o chá faz mal à garganta e outras coisas importantíssimas!...»[1]. Parece-nos importante salientar, a propósito desta afirmação, o seguinte: em primeiro lugar, surge uma “declaração de intenções” acerca das “coisas que fascinavam” os Mler Ife Dada; em segundo lugar, confirma-se a existência de uma forte ligação entre os dois projectos mais importantes da Ama Romanta inicial (e, também, dos dois grupos de Pop-rock dito “experimental” mais importantes de sempre da música portuguesa), patenteada numa certa proximidade entre o universo da lírica dos Pop Dell’arte e dos Mler Ife Dada. Como que a confirmar esta afinidade estética, convém lembrar que o álbum de estreia dos Pop Dell’arte foi produzido justamente por… Nuno Rebelo.
Uma outra “declaração de intenções” da banda pode ser lida no texto que acompanha o primeiro álbum, Coisas que Fascinam, de 1987, gravado já para uma editora maior, a Polygram, no qual são supostamente enumeradas (algumas) das “coisas que fascinam” os Mler Ife Dada: «A muralha da China. Os papagaios que falam. A lua e o céu à noite. A trovoada, os relâmpagos. O arco-íris e as manchas de óleo numa poça de água. O brilho cegante dos soldadores. O mar e os sons da água nos rios (fechar os olhos e ouvi-los em stereo), fazer o mesmo com os carros que passam e as pessoas que falam. Confusões de vozes numa festa (esquizofrenia sonora). O Jardim Zoológico e o Aquário (as cores dos peixes). O fantástico mundo submarino. As conchas. Os cogumelos, os fungos e líquenes nas árvores. As lagartas brancas nos cadáveres. Os cristais de resina nos pinheiros. Os frutos tropicais e as ilhas exóticas. Comidas deliciosas. Roupas extravagantes. Os samurais, os egípcios, os romanos, a fábula de Veneza. A tragicomédia de Nova York. Aquela pessoa, porque é bonita. Aquela outra, porque diz coisas interessantes e inesperadas. Ainda outra pessoa por ser assim como é. Espaços amplos, espaços completamente claustrofóbicos. Espaços construídos, espaços destruídos. Mil coisas que se encontram no ferro velho. Os cristais de quartzo, estaurolitos, minérios brutos. As línguas estrangeiras, tanto mais fascinantes quanto mais incomuns e indecifráveis. O fogo, a idade média», fragmentos de realidade sem aparente relação entre si mas de cuja heterogeneidade imana talvez a totalidade do mundo («Toda a história do mundo [...] Luzes, cores, sons, povos, espaços, o tempo»), não como uma unidade de sentido, mesmo que indecifrável, mas como os signos parciais que povoam a própria superfície do real, entendida como uma linha contínua e ilimitada de produção de sentido (donde «os sintetizadores e o futuro»). Esta enumeração não categorial, finita mas ilimitada, sugere desde logo que o fascínio não pode advir da representação ou reprodução significantes, pois que «são um nada as coisas que eu compreendo e essas não me fascinam»
[2]. A declarada alergia à semiótica aproxima, por um lado, os Mler Ife Dada do movimento modernista que ostentam no nome (o dadaísmo) e, por outro lado, acciona, tal como tentaremos mostrar, uma negociação específica com os significantes que estruturam a matriz da linguagem do Pop-Rock....
(continua)

[1] Duarte, Anabela, http://anos80.no.sapo.pt/mlerifedada.htm.
[2] Rebelo, Nuno, Coisas que Fascinam, Polygram, 1987.

Terça-feira, Abril 14, 2009

Músicas feitas por homens que dançam de forma esquisita-1- Jonathan Richman


Segunda-feira, Abril 13, 2009

Na Pandra Bomba Ainda Jinga a Hidra Samba- 1ª Parte

Sobre a temática das poéticas pop rock em Portugal, eu e o Artista Que Responde Geralmente pelo nome de Boécio escrevemos uma dissertação sobre os Mler Ife Dada que, por ser um pouco longa, vou agora publicar aqui, em várias partes, após pedidos insistentes de centenas de fãs.
Na 1ª parte, fica uma breve análise do contexto histórico pré-Mler Ife Dada. Segue-se uma análise filosófica das letras, em capítulos posteriores. Aqui vai:

Antes de nos debruçarmos propriamente sobre a singularidade da lírica dos Mler Ife Dada, propomo-nos adiantar e explicitar, desde já, uma premissa: discutir as poéticas do Rock português equivale quase inevitavelmente a traçar um campo de estudo a partir do início da década de 80, altura em que se deu uma eventual apropriação singular de um idioma musical externo e que o fenómeno das bandas teve uma verdadeira repercussão na cultura popular do nosso país.
É claro que a importação do Pop-Rock aconteceu desde que este se tornou numa linguagem universalmente reconhecida, ou seja, desde a década de 60. Contudo, esta importação não foi acompanhada por uma generalizada apropriação reinventiva, ficando-se, na maioria dos casos, pela reprodução mais ou menos fidedigna dos modelos externos, dando origem ao chamado “yé-yé”, maioritariamente praticado por conjuntos de origem académica que faziam versões, em português, de êxitos anglo-‑saxónicos para animar os bailes e as festas juvenis. Há que ressalvar, sem dúvida, as esporádicas excepções do Quarteto 1111 ou da Filarmónica Fraude, estas sim meritórias de uma atenção singular.
Na década seguinte, e por razões políticas óbvias, a música popular portuguesa foi essencialmente desenvolvida pelos cantautores de intervenção, que lutavam contra o Antigo Regime. Com a queda do regime, e uma vez que a divulgação da maior parte do filão destes autores era até então proibida, este fenómeno conheceu uma popularidade ainda maior. Os grupos de Rock só voltaram a aparecer, timidamente, por volta de 1976/1977, através da importação das sonoridades progressivas dos Yes ou dos Genesis por parte de bandas como os Arte e Ofício ou os Tantra, numa altura em que no resto da Europa era já o Punk-Rock que ditava as regras.
No início dos anos 80 tudo mudou com o chamado boom do Rock português. Curiosamente, este boom surgiu, em parte, devido a uma greve dos músicos de estúdio da chamada “Velha Guarda”, que se prolongou durante meses. Nessa época, os artistas dependiam, em grande parte, desses músicos de estúdio, os músicos “de sindicato”, pilares do grande evento musical da época, o “Festival da Canção”. Com os músicos tradicionais longe dos estúdios, estes ficaram vazios, dando assim oportunidades a novos grupos e autores, como foi o caso dos UHF, do Rui Veloso ou dos GNR. Aliado a este facto, existe ainda um outro factor que explica a mudança de panorama no meio musical português: no final dos anos 70, os chamados “músicos de intervenção”, desiludidos, e em crise, foram desaparecendo, aos poucos, da cena musical. Com a mudança da conjectura política, as letras panfletárias perderam muito do seu sentido e abriram o caminho para uma “nova” linguagem musical. Pode dizer-se que o famoso êxito de Rui Veloso, “Chico Fininho”, marca definitivamente esta mudança de paradigma. O Rock português tinha condições finalmente para fundar um idioma próprio, que foi capaz de atrair a colaboração de pessoas de outros meios que não a música, como Miguel Esteves Cardoso, que começa a escrever letras para os Sétima Legião ou para Manuela Moura Guedes. Embora, por exemplo, Vítor Rua discorde que alguma vez em Portugal se tenha criado uma gramática própria do Rock que desse origem a um fenómeno que pudesse ser genuinamente descrito como “Rock português” (e não meramente “Rock feito em Portugal”)
[1], o facto é que foi essencialmente a partir desta época que a associação entre a nossa língua e este meio de expressão se tornou facilmente reconhecível pela cultura popular. O número de bandas multiplicou-se, bem como a distribuição geográfica, que deixou de se limitar aos centros urbanos para proliferar também pelo interior, onde antigos grupos de baile de aldeias e vilas remotas se transformavam, à pressa, em bandas de Rock português. As editoras e os concursos de música começaram também a surgir às centenas, um pouco por todo o lado. Como seria de esperar, a qualidade musical e lírica da maioria dos grupos era bastante sofrível.
O boom durou cerca de dois anos, até 1983/1984, altura em que as editoras se deram conta de que o filão se esgotara. De entre os grupos existentes, apenas os melhores sobreviveram. É então que surge uma nova etapa na história do Rock português, aquela que aqui nos interessa particularmente, e que está intimamente relacionada com a criação do Rock Rendez Vous, que albergou seis concursos com a designação de “Concursos de Música Moderna”. Foi nestes concursos que surgiram ao vivo, pela primeira vez, bandas como Ocaso Épico, Croix Sainte, Radar Kadhafi, Linha Geral, M’as Foice, Pop Dell’arte, Mão Morta e, claro, Mler Ife Dada....

(continua)


[1] «Quando se fala em “Rock Alemão”, não se está somente a referir o facto desse rock ser geograficamente realizado na Alemanha, mas, sim, porque no rock alemão existe uma linguagem e uma tecnologia, que o distinguem de, por exemplo, um rock inglês ou americano. Nesse sentido, não existe “rock português”, como não existe “rock espanhol” ou “marroquino” ou “rock italiano”, existe sim um rock feito em Portugal, uma vez que nunca nesta tipologia se conseguiu criar uma gramática musical (adoptada por vários músicos ou grupos de músicos), que fosse própria da nossa tradição musical», Rua, Vítor, “Improvisos sobre o Rock em Portugal”, Jornal Blitz, Suplemento Manifesto, 1992, http://anos80.no.sapo.pt/art007.htm.


Quinta-feira, Abril 09, 2009

























(in Semiotext(e), V.II, 3, 1977)

Sexta-feira, Abril 03, 2009

O Ângulo, Secção "A minha cidade". Volume 1- A cidade de Pandrabombagrad

Vou-lhe falar agora da minha cidade, Pandrabombagrad.
Em Pandrabombagrad, os seres humanos não se relacionam uns com os outros. Ou melhor, os seres humanos definem-se pela roupa que usam cada dia, e as relações desenvolvem-se com base nas roupas. O meu melhor amigo, por exemplo, é um fato castanho, com uma camisa às riscas azuis, e uma gravata com desenhos de tartarugas. Chamo-lhe o “Zé”. Contudo, só por acaso é que as roupas que formam a “personalidade” do meu amigo “Zé” são sempre usadas pela mesma pessoa. Já me aconteceu, por exemplo, encontrar o “Zé” na rua, incorporado por um senhor de bigodes grisalhos, ou incorporado por um indivíduo louro gordo, de trejeitos efeminados.
A roupa que corresponde ao “Zé” determina, todos os dias, a personalidade do “indivíduo” que a veste (coloco a palavra indivíduo entre parêntesis porque na nossa cidade discute-se se o ser humano destituído de roupa tem uma personalidade definida).
Quando abordo os diferentes “Zés”, estes mostram, por vezes, surpresa, durante alguns segundos. Mas depois desenvolvemos a conversa como se nada de anormal se passasse.
A minha primeira mulher chamava-se “Madalena”, nome correspondente a um vestido de noiva branco Cai-Cai, com um corpino com suave drapeado, faixa em veludo em torno da cintura, rematada com um pregador de brilhantes e uma saia em tule com pequenos panos cortados em bico, que adornava um belo corpo louro, feminino e voluptuoso, que conheci uma vez à porta de uma igreja. Na manhã seguinte à noite de núpcias, cada um de nós se vestiu com outras roupas e foi à sua vida.
De vez em quando, encontro em restaurantes, ou a festejar o Copo de Água, ou à porta de outras igrejas, ou dentro de um carro com as inscrições “casados de fresco”, o vestido de noiva branco Cai-Cai, com um corpino com suave drapeado, uma faixa em veludo em torno da cintura, rematada com pregador de brilhantes e uma saia em tule com pequenos panos cortados em bico, e que corresponde à minha noiva “Madalena”. Nessas alturas, e quando me apetece, mostro aos presentes a minha foto de casamento, pego na “Madalena” e satisfazemo-nos no próprio local, ou numa pensão próxima. Depois, cada um vai para seu lado.
Costumo andar com uma mala de roupa, que levo para todo o lado. Nunca sei onde acordarei. Hoje de manhã, por exemplo, resolvi vestir umas calças pretas de ganga, uns ténis Allstar, e uma tshirt do “Super-Homem”, e fui abordado, só de manhã, por duas roupas femininas diferentes (Umas calças jeans azuis claras com cintura baixa, com uma camiseta em meia-malha cinza, a quem dei o nome de “Isabel”; umas calças jeans, de cor cinza, com brilho, e uma blusa com manga longa preta, a quem dei o nome de “Maria Rita”, cada uma reclamando ser eu o seu namorado).
Mas nem tudo foi positivo, pois um homem com cabelo oxigenado, e umas leggings apertadas aproximou-se, com um ar lascivo, e tive de fugir durante um bom bocado.
À tarde, tive de ir trabalhar, pois um senhor engravatado, e com ar de poucos amigos, chamado “Senhor Silva”, chamou-me de um restaurante, perguntando quando é que eu ia levantar as mesas.
Como vê, estabelecemos relações humanas diferentes, todos os dias. Não sei, todavia, se o termo “relações humanas” estará correcto, uma vez que as mesmas estão em constante mutação.
Também se pode levantar a questão do livre arbítrio. Mas, como disse atrás, se discutimos se um corpo despido de roupa é destituído de personalidade, só podemos falar de livre arbítrio no momento em que temos alguma roupa vestida (daí o facto de haver muitas pessoas, na nossa cidade, que fazem sexo de meias vestidas, para não perderem a personalidade).
Mas chega de conversas. Hoje vou dormir a casa da “Isabel”. Amanhã, talvez vista o meu casaco de cabedal preto, as minhas calças azuis, e a minha camisa vermelha. Talvez encontre a “Ana Li”, um vestido azul, às bolinhas brancas que, quando esteve incorporado numa morena escultural, me chamou de “meu tigrão”, e que me levou no seu descapotável vermelho, rumo aos limites orientais de Pandrabombagrad, a cidade onde os seres humanos se definem pela roupa que usam cada dia e a personalidade está, literalmente, à flor da pele.

Domingo, Março 29, 2009

Comunicado da Direcção do Ângulo Saxofónico- 2

Após veementes protestos do nosso membro Algazel, que mandou um mail e um comentário inflamado, a partir do seu refúgio no deserto (a Escola de Forró Alga & Pernambucano Lda.), a Direcção do Ângulo Saxofónico resolveu suspender das suas funções, por tempo indeterminado, o Algazel Estagiário (com quem, de resto, o Ângulo nunca assinou qualquer contrato de trabalho, encontrando-se o dito senhor em pleno período experimental).
O nosso caro Algazel também acha que o Lugones devia ter apagado de imediato os posts assinados em seu nome e não devia ter facultado o acesso do blog ao Alga Estagiário (mas cá para mim, é apenas inveja masculina, pois o Algazel tem o velho desejo de ser o blogger mais popular e credível, de entre os colaboradores do Ângulo).
De qualquer forma, para apaziguar a sua fúria, resolvemos entrar em casa do Lugones, aproveitando o facto de o mesmo não se encontrar presente, para acedermos ao seu computador, e fazermos um pequeno post ao jeito de algumas das suas rimas.
O resultado final é o post que se vê aqui em baixo, “Quero ser italiano”.
O Ângulo agradece, mais uma vez, aos seus queridos leitores.
Um bem-haja a todos!

Quero ser Italiano

Gostava de ser italiano,
E de saber tocar piano,
todas as notas, de toda a escala,
E ser aplaudido, de pé, numa sala,
ou num qualquer bar onde pudesse tocar.
Depois, para o encanto ser total,
Acho que não ficaria nada mal
Pôr-me a dançar,
Com toda a gente no meio da pista.
Escolhia uma miúda,
E apanhava uma bebedeira,
Dormiria com ela a noite inteira,
E sem nenhum compromisso à vista
(como com qualquer bom artista),
Estaria no dia seguinte noutras cidades,
A fazer espectáculos de variedades,
Ou a filosofar à beira-mar,
Para tentar engatar
Outra miúda para acrescentar à lista.
Dir-lhe-ia uma graçola,
E cantar-lhe-ia uma melodia ao som da pianola.
No fim da noite, com um gemido,
Sussurrar-lhe-ia ao ouvido,
Num jeito banal,
Para o encanto ser total,
Dir-lhe-ia, ao cair do pano:
“sabes querida, que eu sou italiano”?

Sexta-feira, Março 27, 2009

Estas músicas que vos deicho

Disseram-me que o Algazel gostava de música clássica.

Confesso que não curto muito essas cenas e essas hondas, mas andei a pesquizar por aí, e os outros membros do blog pediram-me que encontra-se coisas que ele gostasse, para incooperar num post há sua medida.

Acabei por encontrar uma cena clássica muito gira, uma miúda chamada Vanessa Mae (deve ser possidónio, pois ela ainda é nova e ainda tem trassados de oriental, não me parece que seja mãe de uma miúda chamada Vanessa que além disso é nome portugues da zona do Porto, onde as pessoas são portuguesas de gema sem trassos orientalistas nem môros), que toca música clássica muito bem e além disso é muito gira. Assim, mato dois coelhos com uma só queijadada pois que me disseram que o Algazel além de gostar de música clássica gosta de miúdas giras. Esta aqui é um regalo para os olhos e toca muito bem violonselo.

Aqui fica este vídeo.



Quarta-feira, Março 25, 2009

Comunicado da Direcção do Ângulo Saxofónico

Uma vez que o nosso querido colega e amigo Algazel anda desaparecido há uns bons meses, e ainda não recebemos notícias suas, contratámos, temporariamente, para o seu lugar, um Blogger Estagiário, que acabou o Curso há uns tempos, e que andava à deriva por aí, depois de ter tentado a sua sorte noutros países europeus.
Recebemos excelentes indicações deste Blogger, que, ainda por cima, tem pais ricos, e que são capazes de arranjar alguns patrocínios para o Ângulo Saxofónico.
Mas não o contratámos por razões interesseiras. O rapaz escreve bem, não dá erros, e constrói bem as frases. Para além disso, pedimos-lhe para que se debruçasse sobre as referências artísticas do nosso querido Algazel, para que os leitores não notem as diferenças.
Esta semana, o Algazel Estagiário falará sobre Cinema, e Robert Bresson, como verão na crónica que está mesmo em baixo deste post. Para a semana, será a vez da Literatura, com referências obrigatórias a Roberto Bolaño.
Quando o verdadeiro Algazel regressar, voltará a tomar conta da sua rubrica.
Um grande bem-haja aos nossos queridos leitores!

Algazel apresenta crítica literária

Depois da história do forrobodó nas areias do mediterrânico, em terras mexicanas do norte de África, voltei a tempo a Portugal para falar de dois temas do qual eu pessoalmente gosto muito: cinema e particularmente dentro do cinema, o realizador de cinema Robert Bresson.
Actualmente, há na cinemateca um retro-espectativa deste realizador ainda vivo, e que é o realizador vivo mais velho do mundo, ainda mais velho que o Oliveira, pois que o Bresson nasceu em 1901 e fez muitos filmes ao longo dos tempos e quiçá das décadas. A cinemateca representada por João Bernardo da Costa, está a fazer a retro-espectativa de todo o seu espólio cinematogárfico, desde filmes como pickpoquet (de 1959), ou muchete (de 1967), até filmes seus mais recentes, como Nikita (de 1990, com Elton John no papel principal), ou 5º Elemento (de 1997, em que entra a mulher de Bresson da altura, Milla Jovovich).
Bresson, que era primo do "Papa" do Surrealismo André Bresson, influenciou muitos realizadores, mas dizem que se dava mal com outro realizador francês da altura, Jean Pierre Melville, mais conhecido como o autor do livro da baleia Moby Dick, e que fez também uns discos com o pseudónimo de Moby.
Bresson e Melville inspiraram realizadores como Abbas Kairismaki, que fez o "Sabor da Melancia" ou "O vento levar-nos-á nas nuvens passageiras", ou André Sakharov, realizador da "Arca Russa", e vencedor do prémio do Nobel da Paz, em 1975.
Vão haver outros filmes bons na Cinemateca. Aguardem pela minha próxima crónica.

Quarta-feira, Março 18, 2009

Sugestões para o cancioneiro das líricas pop-rock Lusitanas- canção para André Sardet, ou para as Just Girls

Nas letras de pop-rock fala-se muito de amor, quando muito, de ódio (vide as Songs of Love and Hate). Proponho, agora, uma abordagem diferente a esta temática, com uma letra, que mistura, pela primeira vez, desde o “Amor de Água Fresca”, Relações Humanas e Alimentos. Seria interessante colocar a canção na voz de André Sardet, ou dos Pólo Norte ou, então, numa variante feminina, dirigida a um namorado, cantada pelas Just Girls.

Amo a minha namorada
Quase tanto como um saco de batatas
Às vezes ponho-me a pensar do que mais nela gosto
E não chego a qualquer conclusão
Porque é tudo tão igualmente banal, sensaborão…
Mas gosto desta sensação
De nada me agradar, ou excitar particularmente
De me sentar, no sofá, calmamente, ao seu lado, a ver televisão
E não existir naquele momento qualquer tensão,
Ou uma pausa atroz, que terei de preencher, a todo o custo,
Sob pena de me rebentar o coração
De tormentas, incertezas, dúvidas, inquietações.
Com a minha namorada, consigo passear de mão dada, sem medir a força do seu pulso.
É sempre igual, sempre suave, e mesmo que se irrite, e me largue num qualquer assomo de raiva
Eu peço muitas desculpas, simplesmente, e assim seguimos, sempre em frente, pelo caminho, pela mesma estrada de sempre.
Não me bate o coração com mais força, não sinto nada de diferente,
Afinal, amo a minha namorada
Apenas, e tão só, quase como um saco de batatas,
Daqueles que se trazem lá da terra natal, que o vizinho ofereceu
E que ficam na dispensa para o ano inteiro
E quando precisar de me servir, sei que haverá mais uma batata guardada, dentro do saco
Serão todas iguais, sem surpresa, todos os dias do ano
Talvez uma seja maior, outra esteja estragada, outra saiba melhor e me dê um pouco mais de alegria nesse dia
Mas sei com o que contar
(afinal, são batatas).
Gosto de passear com a minha namorada
Discutimos cinema, literatura, tudo muito livremente
Não há razão para discordarmos, pois não há interesse na luta
Na obtenção de uma pequena vitória num qualquer assunto trivial
Quando vamos para a cama, é quase agradável
Não necessito de me mostrar, de me pôr à prova
E posso discorrer, livremente, pensar na vida, no dia seguinte
Enquanto passo com a minha mão sobre a sua pele, que tem um toque suave, inofensivo, elegante.
Conheço-lhe os segredos, pois não tem nenhum
Abraço-a com força, não num esforço de não a perder
Mas tão-só por uma questão de hábito
E eu amo tanto os hábitos
Que me apetece abraçá-los.
Oh, a minha namorada atende-me sempre o telefone a meio do dia
Mas se tiver um amante, não quero nem saber
Afinal, amo-a quase tanto como um saco de batatas.
Quando tudo se esgotar, arranjarei outra
Sem inquietações
Paixões
Ou outras palavras terminadas dramaticamente
Usadas apenas por aquela gente
Que tudo quer e tudo sente
Eu não.
Apenas sigo de mão dada
Com a minha namorada
Um saco de batatas, um quase nada
E assim estarei muito bem

Segunda-feira, Março 16, 2009

Little treasures

Quinta-feira, Março 12, 2009

Um Homem Fora de Tempo

Exmo. Senhor,
Afirma que eu, ao escrever tantas cartas, tantos posts nos meus blogs e ao fazer centenas de comentários em sites e fóruns da Internet, devo ter mais tempo disponível do que todas as outras pessoas.
Respondo-lhe o seguinte: é verdade, e de um modo mais literal do que possa pensar. Não se trata do facto de eu ter uma vida mais desafogada, ou de estar desempregado ou, sequer, de ter um emprego com um horário maleável.
Não, a verdade é que tenho mais tempo disponível, mesmo. E porquê? Vou-lhe contar um segredo: é porque tenho MESMO mais tempo do que as outras pessoas. Comigo, passa-se um fenómeno curioso: o meu dia tem 48 horas, ou seja, enquanto passa um segundo para o comum dos mortais, para mim passam 2 segundos.
Isto pode parecer-lhe um facto bizarro, mas deverá conhecer os meus antecedentes familiares: os dias do meu pai duravam 30 horas. Isto era uma tradição de família: a minha avó paterna tinha dias que duravam 27 horas, e o meu avô paterno tinha dias que duram 30 horas.
O meu pai casou-se com uma amiga de infância, cujos dias duravam 38 horas. Passado uns anos, nasci. Não me dei logo conta da minha bizarra situação. Contudo, as aulas pareciam-me durar uma eternidade. Pudera! Uma aula de 50 minutos para uma pessoa normal representava, para mim, uma maratona de 100 minutos. Mas, às vezes, não me podia queixar, nomeadamente, quando fazia os testes, e dispunha do dobro do tempo dos outros. Até podia ir à casa de banho, descansado, ou comer uma merenda no bar, enquanto os meus colegas olhavam, desesperadamente, para o relógio.
Ninguém repara na minha particularidade. Para os comuns dos mortais, sou como eles, vivo no seu tempo. Apenas eu noto as diferenças. Por exemplo, quando vou ao cinema, tenho o dobro do tempo dos outros para reparar em pormenores técnicos, ou em pequenas gaffes, como um microfone mal escondido, ou um erro de raccord.
Tenho algumas dificuldades nos relacionamentos amorosos, nomeadamente, para desenvolver uma conversa coerente com a outra pessoa, a chamada “cara-metade”. Muitas já terminaram o namoro comigo, alegando que tínhamos ritmos diferentes de vida.
A própria vida sexual representa alguns problemas. Queixam-se de que não dou a devida atenção aos chamados “preliminares” e que me vou abaixo muito depressa, ou que me canso rapidamente, durante o chamado “acto sexual”. Em contrapartida, também dizem que recupero depressa.
Quanto à vida profissional, tenho bastante sucesso. Consigo acabar os trabalhos até ao fim do dia, e ainda escrever longos posts no meus blogs, daqueles que mais ninguém lê.
A morte não me preocupa por aí além, nem tenho medo dos médicos. Até me rio, ao pensar no momento em que estiver muito doente, e em que irei perguntar ao médico:
-Doutor, quanto tempo me resta?
- Apenas dois meses, meu infeliz paciente.
E rir-me-ei para os meus botões, ao saber que ainda terei quatro meses pela frente.
Ao longo da minha vida, e devido à minha fantástica condição, ocorreram-me alguns episódios interessantes. Mas o mais espantoso, e horrífico, ocorreu numa manhã de nevoeiro, num inverno. Ainda me recordo de todos os pormenores. Por mais espantosos que possam parecer, os factos que relatarei agora são todos verdadeiros. Saía eu de casa, como todos os dias, quando….

Nota do Editor: a carta não termina aqui, mas não tive tempo, nem paciência, para ler o resto.
Os meus dias são curtos, amanhã tenho de me levantar cedo, e ainda quero fazer umas partidas de cartas, online.

Quinta-feira, Março 05, 2009

Crónica do quotidiano

Pensando poder resolver os seus problemas de distracção crónica, o nosso grande amigo Excelentíssimo Doutor Leopoldo Lugones (Poldinho para os seus) decidiu tentar uma experiência de retiro e, assim sendo, foi pedir a orientação e a companhia do nosso Excelso Algazel, outrora mestre nessas andanças, para empreender uma jornada pelas areias desérticas do Norte de África. Contudo, e enquanto se preparavam espiritualmente para o evento, foram ambos raptados por temíveis ninfas de tez morena e cabelo revolto, acabando retidos num baile de Forró brasileiro, junto às areias do Mediterrâneo. O nosso excelso filósofo, surpreendentemente versado nas disciplinas da dança, depressa enfeitiçou as raptoras sem precisar de recorrer ao cepticismo argumentativo. Já o nosso querido novelista, impotente a princípio para lidar com a ameaça, e ainda atormentado por visões de cartazes ambíguos colados a paredes não menos ambíguas, acabou por conseguir aderir aos recentes ensinamentos do seu novo mestre e juntar-se à batalha. Diz-se que enquanto um desarmava as inimigas com melífluos passos de sedução, o outro as prostrava através de arrebatadores golpes de luta livre. Não consegui perceber ainda o desenlace de tão singular episódio, nem por quanto tempo ficaram ainda retidos os meus companheiros, mas a quem ousar descrer deste assombroso relato respondo com a missiva que hoje chegou à minha caixa de correio.