Quando a minha namorada foi viver para o estrangeiro, com uma Bolsa de Estudo, resolvi acompanhá-la. Em princípio, ficaríamos um ano fora. Eu estava desempregado, nada me prendia à Cidade-Berço, nem os amigos, de quem me fartara há muito, nem os bares, discotecas, ou as escassas ofertas culturais que havia ao dispor. Além do mais, não me apetecia deixar a minha namorada durante um período tão longo, conhecia a fama da sua cidade de acolhimento, e dos habitantes locais. Deste modo, ficaria por lá um ano, a viver com ela, sempre podia tentar arranjar um trabalho em Part-Time, ou poderia começar a pensar na Tese de Doutoramento.
Chegámos no final do Verão, e instalámo-nos num Apartamento, no centro. Ao princípio, tudo correu bem. Gostávamos da cidade, arranjei um emprego, como Tradutor, e com o meu dinheiro, mais a Bolsa de Estudo da minha namorada, podíamos pagar a Renda, e viver desafogadamente. O Apartamento era pequeno, mas mais do que suficiente para os dois – um quarto, uma sala, uma pequena cozinha e casa de banho.
E assim se passaram alguns meses. Deixei de comunicar com a família, e com os velhos amigos. Depressa me esqueci deles, e suponho que o esquecimento foi mútuo.
Foi numa manhã de Inverno que tive a discussão com a minha namorada. Nem recordo os motivos, mas suspeito que foi por algo fútil, como, por exemplo, eu não ter comprado um pacote de leite, na véspera, ou um qualquer filme, que víramos em DVD, na noite anterior, e sobre o qual tivéramos uma interpretação diferente. Seja como for, nessa noite, ela não regressou a casa. Nem no dia a seguir, nem no outro a seguir. Telefonei-lhe várias vezes para o telemóvel, mas estava sempre desligado, fui à sua Universidade, mas ninguém me conseguiu fornecer informações.
Quando já pensava na possibilidade de me deslocar a uma Esquadra de Polícia, ela apareceu, vinda do nada, com um ar tranquilo. Disse-me apenas que não se ia demorar, era só o tempo de pegar na mala, enchê-la com as suas roupas, e objectos pessoais, e pôr-se a andar.
Explicou-me apenas que se apaixonara por um lindo rapaz que morava noutra cidade, na ponta oposta daquele País, e que ia viver com ele.
“Podes ficar com a casa”, “para não dizeres que eu sou uma cabra megera insensível, informo-te que já paguei, adiantada, a Renda dos próximos três meses”, explicou-me, à laia de despedida, antes de fechar calmamente a porta.
Não sei porquê, lembrei-me da música da Ágata, “podes ficar com a casa do campo, o carro, mas não fiques com ele”. Sorri. Encostei-me no sofá, e adormeci durante umas horas.
Acordei cheio de fome, e acabei de devorar os parcos pedaços de comida que restavam no frigorífico.
Deixei-me ficar num estado de letargia crescente, ao longo de vários dias. Acabara de traduzir um livro há pouco tempo, e estava sem trabalho.
Com o dinheiro que me restava, comprei comida, que deu para uma semana.
Ao fim desse tempo, voltei a ficar cheio de fome. Mas não tinha coragem para pedir dinheiro emprestado, à família, talvez por uma questão de honra. Estive uns dois dias sem comer, e começava a ponderar hipóteses drásticas, como o suicídio, quando se deu o acontecimento, que, como se diz em tantas histórias e filmes, nesta frase batida, “iria mudar, para sempre a minha vida”.
Lembro-me que acordei irritado e desesperado, cheio de fome, depois de um longo e confuso sonho, que misturava comida, a minha namorada, e crocodilos que voavam (confesso que não entendi essa parte do sonho).
Num acesso de raiva, dei um pontapé na parede do meu quarto. Qual não foi o meu espanto e horror, quando reparei que, com o meu pontapé, nela abri um enorme buraco!
Peguei nos bocados de parede caídos no chão, e tentei remendar os danos. Mas reparei que os pedaços se desfaziam nas minhas mãos. Sem saber muito bem porquê (talvez um princípio de loucura provocado pela fome?), levei à boca os pedaços de parede arrancada.
Abri os olhos, de espanto: a parede do meu quarto era feita de chocolate!
Durante um dia e meio, devorei um pedaço inteiro de dois metros de largura por dois metros e meio de altura. Passado mais uns dias, já não havia qualquer separação entre o quarto e a sala.
Reparei que as paredes tinham composições diferentes: havia umas feitas de chocolate branco, outras com pedaços de nata, laranja cristalizada, ou Baileys. A mobília da casa também era saborosa - gostei particularmente da mesa de jantar, feita de chocolate negro temperado com cacau, ou do lavatório da casa de banho, feito de trufas de caramelo.
Ao fim de quatro meses, eu tinha engordado muitos quilos, e tinha devorado grande parte da casa, e da mobília.
Um dia, enquanto eu estava a comer um dos pés da cama, tocaram à porta. Era o Senhorio. Confesso que nem o reconheci, quando lhe abri a porta. Durante esses meses, mal saíra de casa, e deixara de ter contactos com os restantes membros da espécie humana. Mal me lembrava, sequer, da minha namorada. Muito menos me recordava da existência de um Senhorio, a quem tinha de pagar a renda do Apartamento que ocupava.
Penso que o meu aspecto o assustou, pois olhou-me de um modo estranho, inquieto, e balbuciou algumas palavras, como se não me quisesse incomodar.
“Peço perdão, mas notei que este mês não pagou a Renda, e…”….
Não acabou a frase. Nesse momento, já olhara em redor para todo o Apartamento. Ficou petrificado, durante um minuto ou dois.
Só conseguia dizer “o Senhor destruiu-me o Apartamento!”. Depois, abriu uma pasta, que trazia na mão, e mostrou-me um papel. “Leia!”, gritou alto.
Comecei a ler. Era o Contrato de Arrendamento da casa, que assinara, uns meses antes.
“Leia a Cláusula Quinta! Já!”.
Li a Cláusula Quinta, que rezava o seguinte: “não poderão ser realizadas obras no imóvel em questão sem prévia autorização do Senhorio”.
“Pediu-me autorização para partir o Apartamento todo, e para destruir e comer a mobília?” (nesse momento, ele olhou para o pedaço da cama, que eu ainda segurava com a mão, e que ia trincando distraidamente, enquanto lia o Contrato).
“Acho que não”, respondi-lhe.
“Eu também acho que não”, respondeu-me, colérico.
Não me recordo bem do que se passou a seguir. Sei, apenas, que houve muitos gritos, que o Senhorio me tentou atacar, que eu me defendi com uma faca de cozinha (não era feita de chocolate), e que a espetei no peito do Senhorio, que fez um estrondo ao cair no chão. Medi-lhe o pulso. Estava morto. Um rio de sangue corria, livremente, pela sala.
Sentei-me no chão, atordoado, e cansado. Depois, sem saber muito bem porquê, molhei o dedo no sangue do Senhorio, e provei-o. Era bom. Sabia a groselha.
Entretive-me a esvaziar-lhe o sangue do corpo. Colocava-o em vários copos, que engolia de seguida, depois de os encher com gelo (o sangue era quente, como a água que fica esquecida, durante uns meses, no Verão, dentro das garrafas de plástico, nos automóveis).
Cortei-lhe o corpo em pedaços, que separei, meticulosamente, e guardei-o em vários Tupperwares. Por curiosidade, resolvi experimentar o seu sabor. O cérebro era bastante agradável, parecia feito de massa pão. Os intestinos sabiam a aletria, e o fígado fez-me lembrar um Almendrado do Algarve.
Quando estava a devorar o pulmão esquerdo, tocaram-me à porta. Cauteloso, espreitei, para ver de quem se tratava. Era a minha vizinha do lado, uma velha embirrenta.
Abri a porta, e perguntou-me, de chofre: “desculpe, mas há bocado ouvi uns gritos, vindos desta casa. Reparei que era a voz do Senhorio. Está tudo bem?”
“Está, claro! Mas entre, por favor!”, respondi-lhe.
O corpo da minha vizinha também tinha um sabor peculiar. O seu cérebro, por exemplo, sabia a farófias. Fiz uns batidos deliciosos com sucos gástricos, que misturei com pedaços das glândulas pituitárias. O seu exoesqueleto era estaladiço, e crocante.
Durante os dias seguintes, entretive-me a deitar mais paredes abaixo. Fiquei com todo o andar por minha conta. Devorei a mobília da minha vizinha, como o armário que sabia a Charlotte de chocolate, ou o tapete da sala, um fantástico crepe de alfarroba recheado com Chantilly.
Mas vamos acabar com a história, que vai longa. Provavelmente, já me estarão a ler na diagonal.
Ao longo dos meses seguintes, fui conhecendo os outros vizinhos do prédio. Devorei um número indeterminado de pessoas, e executei várias obras que chamaria “Obras Estruturais de Relevo”.
Até que me tornei o único Inquilino. As melhores iguarias do prédio também estavam todas devoradas. Restavam alguns pedaços que não me interessavam (deixei, por exemplo, de lado, as mobílias que sabiam a Doces Conventuais, que nunca apreciei).
Resolvi mudar de casa. Acumulei bastante dinheiro, que roubei aos Inquilinos falecidos.
Um dia, uma bela rapariga estava a mostrar-me um quarto, para arrendar, que ficava na sua casa, e começámos a conversar. Falei-lhe do meu país, e de outros assuntos, literatura, cinema, e doces.
Fiquei nessa casa, e começámos a namorar passado pouco tempo. Nessa altura, eu já tinha ido ao médico, e descobri que tinha Diabetes Mellitus do Tipo 2. Proibiu-me, veementemente, de comer qualquer tipo de doces.
Não me importo muito. Voltei a arranjar trabalho, continuo a morar com a minha namorada, e somos felizes. Aprendi a cozinhar uns magníficos pratos de Nouvelle Cuisine, e também faço um bom sushi.
Não me esqueço de comprar leite, todos os dias, e temos a mesma opinião sobre a música que ouvimos, os livros que lemos, e os DVD’s que vemos em casa, no sofá.
Mas às vezes ponho-me a pensar, e questiono-me se as outras casas, nesta cidade, também serão feitas de chocolate.
Também acontece acordar a meio da noite, e de olhar, faminto, para a minha namorada. Faço-lhe festas na cabeça, e começo a apalpar-lhe o corpo, pensando no lindo manjar que faria com ele (sempre achei que os seus seios devem ter o gosto de Doce de Abóbora com chila). Nesses momentos, a minha namorada acorda, estremunhada, e sorri.
Sorrio, também. Ela beija-me, carinhosamente, e pergunta-me:
“Gostas do meu corpo?”
“É delicioso”, respondo, e continuo a apalpá-la.
Ela ri-se, e sussurra-me, “és insaciável”. Depois, começamos a fazer sexo, até adormecermos, abraçados um ao outro.