segunda-feira, dezembro 02, 2013

O cão do Bruno



Ao terceiro dia, o cão do Bruno aprendeu a fazer penhoras.
Com a mão direita segurei um osso e coloquei-o mesmo em frente ao seu nariz.
Dei-lhe o comando: “Penhora, cão!”, num tom de voz calmo e alegre, uma única vez.

O cão hesitou, por isso, com a mão esquerda, segurei-lhe gentilmente uma das patas, quase sem o magoar e empurrei-o em direcção do computador, onde o laptop já estava preparado para inserir os dados necessários à penhora. Ao mesmo tempo, enquanto o empurrava, ia colocando a minha mão direita para trás da cabeça do animal, acompanhando o movimento do seu corpo.
O cão do Bruno sentou-se quase sem dificuldades e começou a trabalhar.

Para não o cansar muito, ensinei-o apenas a fazer penhoras de bens móveis de pequena dimensão, motociclos e outras coisas de pouca importância para a economia nacional. Ao fim de uma hora, o cão do Bruno abanava a cauda, em sinal de contentamento.

Ao quinto dia, e quando o cão do Bruno já possuía os comandos básicos de obediência, começou a penhorar bens móveis de maiores dimensões.
Esperei pelo momento em que ele se encontrava a dormir a sono solto para que me aproximasse furtivamente. Delicadamente, e sem que ele notasse, segurei-lhe as patinhas da frente e, acto contínuo, ergui o seu corpo até que ele estivesse a cerca de dois metros do chão. Previamente, tinha aberto a janela que dava para a rua. Levei o canito em direcção à janela e coloquei-o do lado de fora, preso apenas pelas patas. O cão do Bruno olhou para baixo e deve ter reparado que trabalhamos num andar bastante alto daquele edifício de escritórios – mais precisamente, o 16º piso.

Com cuidado, para o não deixar cair, estabeleci contacto visual com o cão do Bruno e disse-lhe, num tom firme, mas fraternal: então, vamos fazer penhoras de bens móveis de maiores dimensões?
Foi um dia de trabalho muito produtivo, no qual o cão do Bruno aprendeu a fazer penhoras de maiores dimensões – ao princípio automóveis, depois passámos para os autocarros, os helicópteros, as aeronaves, os cacilheiros, torpedeiros, submarinos e porta-aviões. 

Ao fim de umas horas de exercício, o cão do Bruno abanava a cauda, em sinal de contentamento.
Ao sexto dia, passámos paras as penhoras dos bens imóveis, nomeadamente, prédios rústicos e urbanos e respectivas partes integrantes, bem como os direitos inerentes àqueles prédios (artigo 204º, do Código Civil).

A educação do cão do Bruno começou a tornar-se um verdadeiro desafio. A adrenalina constante com o desafio do trabalho obrigava-o a ficar sempre alerta, sem adormecer. Por isso, o truque de lhe pegar nas patas da frente enquanto ele dormia passou a ser ineficiente.
Ao sétimo dia, percebi que não devia obrigar o cão do Bruno a trabalhar. Não é produtivo estar a forçar um trabalhador a fazer aquilo que não quer. O melhor é tentar fazer passar a mensagem de que ele não tem outra alternativa.

E por isso, nada melhor do que expor as suas vulnerabilidades e mostrar-lhe a sua incapacidade em sobreviver à terrível lei da selva do mundo exterior.
Por outro lado, as chefias deram-nos os mapas de objectivos, através dos quais ficou bem claro que existe apenas uma margem de erro na ordem dos 0,008 por cento. Por isso, as directivas foram bem claras: temos de nos focar no trabalho.
Recordo as palavras de ordem do presidente, na mensagem de ano novo: “nada de brincadeiras, barulho e correrias.”

Tratei de adaptar o local de trabalho do cão do Bruno o melhor possível para que ele pudesse alcançar as metas estabelecidas pela entidade patronal. Lembrei-me dos meus tempos de estudante, horas mal gastas no meu quarto a tentar estudar, mas sempre distraído com alguma particularidade do mundo exterior.
Coloquei uma variadíssima panóplia de armadilhas ao lado da cadeira onde o cão do Bruno se senta. Isso impedia-o de se levantar a meio de um trabalho. Está explicado, no ponto 5.2 do normativo interno, que “um funcionário que se levanta da cadeira a meio do horário de expediente tem uma probabilidade maior na ordem dos 18,67 % de se enganar.

O cão do Bruno revelava, ao oitavo dia, uma relativa imaturidade, o que explica o facto de ter ficado com algumas mazelas permanentes que poderia ser facilmente evitáveis.
Uma das patas do cão do Bruno foi arrancada numa armadilha especializada para imobilizar doninhas com febre de dengue e a sua cauda ficou dilacerada ao passar junto ao “detector de movimentos em horário de expediente”, instalado no meio da sala, que é activado e deita imediatamente um jacto de ácido sulfúrico para cima do incauto funcionário que passeie durante as horas de trabalho.

Não há mal que não venha por bem. Sem cauda e sem uma pata, o cão de Bruno percebeu que não arranja outro trabalho lá fora. Percebeu que também não deve levantar problemas. O mais seguro é ficar sentado na sua cadeira, a fazer penhoras.

Será o cão do Bruno feliz?
No índice de felicidade apresentado trimestralmente pela empresa, o cão do Bruno, ao fim de dez dias de trabalho, ficou com uma média ponderada de 4,33 valores. Ao lado do gráfico, uma anotação, que dizia: “satisfatório. Mas pode melhorar em alguns índices” A chefia não explica em que índices deverá o cão do Bruno melhorar.

Não devemos fazer-lhe festas. A chefia desincentiva contactos corporais. O cão do Bruno começou a rosnar ao ouvir a palavra “festas”. 

O cão do Bruno especializou-se em penhoras de direitos. A penhora de direitos abrange igualmente, em regra os respectivos frutos civis.

O cão do Bruno não interioriza conceitos.  O cão do Bruno começou a penhorar todo o tipo de direitos, indiscriminadamente e a fazer uma amálgama onde cabem lá dentro frutos civis e direitos civis.

A chefia ficou muito agradada e a sua média ponderada já subiu para 4,54 e ofereceram-lhe um boné com o logótipo da empresa. Também lhe ofereceram um jornal, que serve para lhe cobrir o corpo durante as frias noites de inverno, enquanto faz penhoras pela noite dentro. 

O cão do Bruno começou a penhorar testamentos e últimas vontades, incluindo as missas pelas almas dos futuros defuntos. O Governador mandou um telegrama a felicitar o cão do Bruno pelas inovações em matérias de penhora introduzidas nos últimos dias, que permitem poupar na ordem dos 8,39765
O índice de felicidade do país é de 6,73                                              
O índice de felicidade da empresa é de 5,834 

O cão do Bruno penhora os funcionários que se juntam em grupos de mais de 3 pessoas à hora do almoço. A chefia obriga-os, ao fim do dia, a deixarem o cartão de identificação à entrada, para não mais voltarem.
O cão do Bruno está a planear penhorar a memória futura de 95% da população nacional não activa
Hoje, há 30 jornais espalhados pelo chão da sala, para darem as boas vindas aos 30 novos cãezitos do Bruno, que acabaram de nascer.

Fiquei aqui sentado, durante a noite, a planear o longo dia de trabalho e as acções de formação para os novos funcionários. Têm de aprender depressa, logo no primeiro dia. Há 500.000 penhoras pendentes de bens móveis. 1.500,00 de bens móveis. 3.000.000 de direitos. 5.000.000 penhoras de memórias futuras.
 Com a mão direita, seguro o osso, e coloco-o mesmo em frente ao meu nariz. Distraído, digo maquinalmente, num tom de voz calma e alegre, “penhora, cão”!




   

4 Comments:

Anonymous stay sick said...

Vida de Cãomando é dura. E não têm direito a greves.

12/03/2013  
Blogger Frederico Fiúza said...

Pá..., adorei o teu conto. Continua o bom trabalho.

12/06/2013  
Blogger Lugones said...

Stay sick, Greve, só se for um simulacro de greve, organizado pelas chefias do cão do Bruno :)

Obrigado pelas palavras simpáticas, Frederico!

12/07/2013  
Blogger Alberto Colima said...

Ou um simulacro de manifestação...

12/07/2013  

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