sexta-feira, janeiro 23, 2009

Entreacto em cinco minutos

Eu tinha um amigo suiço chamado Jacques Dingue, que vivia no Peru, a 400 metros de altitude; tendo partido há alguns anos para explorar essas regiões, tinha-se prendido por lá aos encantos de uma estranha índia, que o tinha completamente enlouquecido, por se lhe recusar. A pouco e pouco, ele enfraquecera, e agora nem sequer saía da cabana onde se instalara. Um médico peruano, que o tinha acompanhado até ali, prestava-lhe assistência, para tratar uma demência precoce, que ele julgava incurável.
Numa noite, uma epidemia de gripe caiu sobre a pequena tribo de índios que hospitalizava Jacques Dingue; todos, sem excepção, foram contagiados, e de duzentos indígenas, cento e setenta e oito morreram em poucos dias; transtornado, o médico peruano, regressara a Lima imediatamente…O meu amigo foi, também, atingido pelo terrível mal, e imobilizado pela febre.
Ora, todos os índios mortos possuíam um ou mais cães, os quais, passados poucos dias, porque não tinham outros recursos para viver, começaram a comer os seus próprios donos; esquartejavam os cadáveres, e um deles trouxe para a cabana de Dingue a cabeça da índia por quem ele estava apaixonado. Reconheceu-a imediatamente e sentiu, sem dúvida, uma intensa comoção, pelo que subitamente ficou curado da loucura e da febre; voltaram-lhe então as forças e, arrancando a cabeça da mulher das goelas do cão, entreteve-se a atirá-la para o outro canto do quarto, aos gritos para que o animal lha trouxesse; por três vezes recomeçou o jogo; o cão trazia-lhe a cabeça, agarrando-a pelo nariz; mas à terceira vez, em que Jacques Dingue a tinha atirado com mais força, ela quebrou-se contra a parede, e o jogador de bola pôde constatar, para sua grande alegria, que o cérebro que dela jorrou apresentava uma única circunvolução e se assemelhava, espantosamente, à forma de um par de nádegas!

(Francis Picabia, retirado de Jesus-Christ Rasstaquouère, traduzido por Jorge Silva Melo).