sexta-feira, novembro 23, 2007

Pierrot & Colombine revisited

Rio-me a bandeiras despregadas, riso de um deus ou de um animal. Pelo menos não há sangue, foi uma coisa limpa. Não me lembro de rir assim desde que acabou aquela série de comédia na televisão, que eu via quando era miúda. Agora a televisão mostra o vídeo do nosso casamento, os dois a rirmo-nos sem parar, como desde que nos tínhamos conhecido. O Pedro sempre gostou das minhas piadas e dava gargalhadas estrondosas até perder a voz. Mas eu nunca tinha contado tantas piadas e feito tantas cócegas como hoje. Quando lhe fazia cócegas tinha espasmos hilariantes que lhe faziam perder seriamente o fôlego. Um dia disse-lhe que o nosso casamento era uma grande palhaçada e ele riu-se, como sempre. Quando passou a rir-se menos, comecei a desconfiar de alguma coisa, mas foi só quando o ouvi rir ao telefone é que tive a confirmação. Ele dizia que se tinha de controlar por medo de morrer a rir, como naquele sketch da série de televisão. Os risos a tornarem-se urros a tornarem-se gritos de sufoco só me deram ainda mais vontade de rir. O corpo gordo ali, inerte, com um sorriso idiota. E eu a rir‑me a bandeiras despregadas. Continuei a contar piadas, talvez por compensação. Foi por acaso que encontrei aquele bilhete sem graça no bolso do seu casaco. Hoje não consegui parar com as piadas e com as cócegas. Mais, mais e mais. Admito que me tenha traído, mas não que risse de piadas de mau gosto. Quando descobri que ele também tinha visto aquela série, ainda pensei que tudo estava salvo.

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

A ironia salva?

11/23/2007  
Anonymous Anónimo said...

Um bom escabeche, este post! Avinagrado...

11/23/2007  
Blogger E. A. said...

"Admito que me tenha traído, mas não que risse de piadas de mau gosto."

A Sr.ª Columbina tem, efectivamente, muita piada.

11/23/2007  

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